domingo, 21 de outubro de 2018

10 - Cinema brasileiro nos anos 70. Os mais criativos e produtivos anos do nosso cinema.Algumas digressões e a realização de " Os noivos"

Para mim a década de 70 foi a mais criativa e profícua do cinema brasileiro. A política de cotas, criada para a defesa de nossos audiovisuais e que obrigava a exibir uma quantidade de filmes brasileiros por ano, acabou por favorecer e incentivar as diversas linguagens. Se voltassem hoje, jovens e dispostos a recomeçar, Walter Hugo Khouri e Carlos Hugo Christensen , cineastas ousados e criativos, por exemplo, não conseguiriam criar um obra nem fazer os filmes que fizeram. Primeiro porque a sociedade de um modo geral se tornou conservadora e hipócrita. A sexualidade e a poesia contidas em Eros e O Menino e o Vento seriam muito permissivas  para nossos tempos, sombrios e dominados por uma linguagem televisiva  e falsamente ingênua, e se não levasse os autores à prisão, os obrigariam a se calar e a fazer uma auto-censura. Anos depois do assassinato de Pasolini, da morte de Visconti , de Bunuel e de Joseph Losey , Os 3 ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ( 1905 ) de Freud voltaram a ser tabu, principalmente no que concerne à sexualidade em suas diversas formas. Essa polimorfia ( da sexualidade ) deve ser negada veementemente; isto 113 anos depois da obra escrita. A possibilidade de realização de filmes plenos e libertários  ( que sejam feitos, distribuídos e vistos ) é praticamente nula. Sabendo que a produção foi facilitada pela novas técnicas mais acessíveis que não a película, foi necessário ao sistema criar um gargalo para que os filmes não sejam vistos pelo público e não funcionem como mensagem revolucionária, polêmica e verdadeiramente educativa. Existem filmes financiados com dinheiro público, por 5 milhões ou mais, que usam uma linguagem de catálogo, diluída e suspirante aos infinitos, sem a mínima verdade e vergonha na cara, que são destinados à exibição, aos festivais pré-destinados com grana e divulgação maciça. Existem por outro lado um cinema de poucos recursos com filmes feitos por e sobre as ditas minorias: negros, homossexuais, mulheres, que passam em sessões quase secretas  ( uma vez por ano!!??, por mês !!!? ) em guetos de cinemas especializados e em festivais também especializados e que esterilizam qualquer mensagem e que jamais chegarão ao circuito convencional de exibição, sendo assassinados desde que nascidos. Fazer um filme hoje em dia é fácil, pode ser feito até com celular mas, divulgar a verdade contida nele é impossível. Todos tem que saber que o rei não está nu. A televisão, que em seu nascedouro tinha alguns programas educacionais, como os telecursos pela madrugada, espaço para teleteatros, roteiristas e artistas criativos, hoje nem isto tem mais, pois é perigoso para o sistema. Corre o risco das pessoas se esclarecerem e diminuir o consumo. Da manhã à noite se transformou numa máquina absurda e sofisticada de vender produtos, criar plateias imbecis ( uma máquina de fazer doidos como disse Sergio Porto ) e servir aos interesses dominantes das elites. O cinema que trata da sexualidade humana fica restrito ao gueto pornográfico com filmes tragicômicos e sem a mínima ousadia estética , poética e criativa. Esse é o tempo em que vivemos. Nos anos 70, que admiro e que trato aqui,  ao se liberar o mercado ao cinema brasileiro e delimitar o raio de ação do cinema estrangeiro, se tornou possível ouvir as vozes de diferentes pessoas e ela, a década, se tornou a mais criativa do nosso cinema. Eu mesmo consegui  fazer cinema por esse motivo; essa política de cotas e a abertura do mercado obrigava a se ouvir  diferentes pessoas. Gente genial como o Carlão Reichenbach, culto e anárquico ao mesmo tempo; atrizes lindas como Matilde Mastrangi e de suave beleza como Aldine Muller; primitivos geniais como o José Mojica Marins ; poetas como Ozualdo Candeias e o Fernando Cony Campos; enfim nos anos 70 obrigou-se a revelar as diferenças, pois no mínimo noventa filmes por ano eram necessários para preencher a cota e serem efetivamente exibidos e vistos pela população. Deixamos nestes anos de ser estrangeiros em nossa própria terra e ao nos vermos nas telas nossa auto-estima cresceu. Fora os curtas metragens sobre temas brasileiros que obrigatoriamente passavam antes das sessões. E o que se via? Se via um Brasil com todas as suas contradições e belezas. Até um negro como eu, suburbano e sonhador, depois de trabalhar por anos como técnico em inúmeros filmes, no finalzinho da década, em 1979.se arvorou a fazer autoria e a dar sua mensagem. Desta forma surgiu Os Noivos meu primeiro longa metragem. Havia aberto a Aleph Filmes com Otávio de Miranda e Reinaldo Cozer; estes com Adnor Pitanga da Scorpius Filmes e contando com a generosidade dos atores Reinaldo Gonzaga e Neila Tavares, que confiando no projeto trabalharam por valores inferiores aos do mercado, viabilizaram assim a produção, assim como os técnicos, fotógrafos, cenógrafos e figurinistas. Filmado em 21 dias e editado em tempo recorde, o filme rendeu o necessário para que desse algum lucro, se  pagasse e ainda levasse prêmios e reconhecimentos como o de melhor roteiro pela Associação Paulista de Críticos de Arte ( APCA ). Fazer cinema criativo e comercial ao mesmo tempo hoje em dia é impossível. O império está mordendo fundo. Todo o dinheiro vai para o exterior para sustentar uma imensa máquina de guerra.Aqui só existimos em guetos. Essa é a política do império no mundo todo. Não existe lugar para uma arte autêntica como a canção, a literatura ou o cinema italiano, francês, argelino, sueco, brasileiro. Tudo precisa ser destruído rapidamente em nome de uma globalização, de um cinema pasteurizado como se tornou o cinema dos poucos e criativos cineastas que restaram. Somente o cinema do império e de quem fala aquela linguagem pasteurizada e falsa interessa. Criaram no mundo gerações suicidas, que negam e têm vergonha das suas identidades e diferenças. O que havia de revolucionário na feminilidade,  na negritude e na homossexualidade foi domesticado.Como a pobre menina da padaria à qual me refiro no post anterior e que se recusava a me ver por eu ser negro, em plena Lapa carioca em um país miscigenado e repleto de diferenças. As pessoas tem medo de suas bundas, de seus sovacos, de seus excrementos  e até de suas lágrimas. Julgam que o colonizador não fede. Ao enclausurar todas  as faixas de criatividades aos guetos, iniciam um processo de apartheid onde todo mundo sonha em sair dele em se livrar desta prisão e  ganhar um Oscar, ficando semelhante ao neocolonizador. Esse é o ideal que é perseguido por todos que conseguem sair do buraco em que foram jogados. Fazer filmes para ganhar o Oscar, vamos ver quem vai ser o primeiro a ser comprado, é o ideal do cinema brasileiro atual, é o ideal de quaisquer dos filmes feitos com dinheiro publico, em geral na faixa de milhões e é o ideal do cinema comercial no mundo todo. Fazer filmes para ganhar o Oscar. Filmes de planos rápidos e comerciais  para evitar a reflexão, ou pastiches mal estudados de filmes antigos refeitos  com glamour superficial. Ninguém se arrisca e o medo da verdade é geral. É tudo premeditado, previsível e falso. A verdade, que décadas atrás estava contida em um Fellini, um Bunuel  e um Bergman por exemplo, sumiu. A coisa é muito simples e ninguém quer ver. É Marx , pois " farinha pouca, meu pirão primeiro" , e é Freud, " tem que se descarregar o ódio em cima de alguém " . Esta é a época em que vivemos e isto ainda vai levar muitas décadas até ser modificado. No próximo post vou tentar esmiuçar melhor essa situação.
Filmando um plano de Os Noivos; na câmera o Diretor de Fotografia Edson Santos - 1979

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

9 - Ser negro, ser negro e fazer cinema. Alguns curtas a mais e o caminho para o primeiro longa-metragem.

Uma das perguntas que me fazem sempre é sobre ser negro e,  principalmente, sobre ser negro e fazer cinema. Ser negro é terrível e na maioria das vezes extremamente cansativo; tentam te derrubar de qualquer forma. Você é humilhado o tempo todo desde o momento que entra na portaria de seu prédio à ida na padaria para comprar pão pela manhã. O que se perde de vida anímica se defendendo é impressionante. O problema maior em tudo isto é que é uma coisa subjetiva, muito difícil de explicar. Sartre tem uma boa reflexão sobre o problema. Ele diz que é difícil falar sobre o negro , pois não se teve uma experiência negra. Isso é real. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Ralph Ellison escreveu a meu ver o livro mais importante sobre a questão racial que já lí : " Homem Invisível ". A tradução brasileira editada pela Marco Zero é primorosa. Sou invisível 24 horas por dia, nas ruas, no ônibus, no cotidiano em geral  e esta invisibilidade se amplifica nas ações que faço dentro da sociedade em que vivo. Talvez eu seja o negro que mais filmes dirigiu neste país. Consegui Deus sabe como, fazer 3 longas-metragens autorais em que escrevi o argumento e o roteiro, participei da produção com a minha Aleph Filmes e dirigi. Fiz nos anos 70 e 80, 15 curta metragens; filmes praticamente sobre tudo. Arquitetura, música, bairros, literatura, filmes institucionais e científicos como o Aids e Odontologia e o Aids e Medicina para o Nutes na campanha do DST Aids do Ministério da Saúde; trabalhei estagiando com Carlos Manga em alguns comerciais e sou depois de meio século trabalhando, um ilustre desconhecido no meio profissional e cultural brasileiro. Sobre a invisibilidade do negro um exemplo que sempre cito é o de chegar na padaria com a ficha estendida esperando para ser atendido, a moça atende todo mundo e de repente você pergunta " e eu aqui? "  e ela responde " desculpe não tinha te notado". É que você é invisível e as pessoas tem medo de ver a diferença. Isto quando não olham para você com um nítido ódio e desprezo por ser negro. Isso ocorre quase que diariamente em plena Lapa carioca bairro onde moro, miscigenado num Rio de Janeiro multifacetário e plural.Consegui fazer meus filmes e ganhei até alguns prêmios e parcos reconhecimentos, porque eu não sabia que era negro; sendo mulato e de uma família multiracial eu me julgava igual a todos; levava porradas, levantava e retomava o trabalho pacientemente. Pensava assim: " o erro é meu, você tem que aprender mais, ler , trabalhar". Batia na porta da casa dos outros, entrava em faculdades e cursava. Fiz licenciatura, cheguei até a pensar em dar aulas, mas de tanto ser humilhado e ridicularizado, desisti.Sobrevivi a tudo isso porque muitos dos  que me ajudaram não sabiam que eu era negro, que eu era um inimigo a ser massacrado. Duvido que homens cultos , sinceros e inteligentes como o Khouri e o Christensen soubessem que eu era negro. Para eles eu era um homem semelhante e me tratavam como tal.No momento em que vivemos, essa situação das chamadas minorias se agrava ainda mais. O Brasil é um país com uma herança colonial muito forte e as elites são extremamente servis aos interesses estrangeiros que nos exploram. Elas, essas cruéis elites feudais, são a ponte necessária para a espoliação de nosso povo, nossa cultura e nossa riqueza A questão do negro se insere aí. Pouco dinheiro circula para arte, cultura e educação. Oportunidades não mais existem e a possibilidade de negros dirigirem com a liberdade autoral que tive é nula. Esta liberdade só existe na medida em que as obras feitas fiquem confinadas em guetos que ninguém vê ( o famoso gargalo da distribuição ) que filtram o que pode ser visto ou não. Os negros de hoje só podem ter acesso à direção ou a quaisquer cargos importantes se estiverem adaptados dentro do esquema do negro servil. Isto é fácil de entender e vou explicar como: as faculdades , as emissoras de televisão, as grandes empresas, alguns partidos políticos mais modernosos, tem sempre um plantel de dois ou três negros de plantão, em cargos mal remunerados e servis, para disfarçar o ódio e o racismo que permeiam nossa cultura. Se por acaso esses negros se arvorarem a aparecer um pouco mais, se tira rapidamente o brinquedo das mãos dos meninos prodígios. Que me perdoem os irmãos de raça,e que não me interpretem mal. Acredito que o que falo é ciência, não é questão pessoal desta ou daquela pessoa; são lugares já pré- marcados e definidos na estrutura e quem ocupar esses lugares terá que agir assim. Relendo O Mal Estar na Civilização de Sigmund Freud ou Salário Preço e Lucro de Karl Marx se entende facilmente como estes lugares precedem às pessoas que os ocupam. Apesar de tudo isto consegui sair vivo depois de tanta porrada e golpes baixos que sofri. Realizei ainda com dificuldade e com dinheiro próprio os curtas Augusto do Anjos, Ataulfo Alves, Antonio Maria, Santa Teresa Reserva Urbana , Morro da Conceição e muito outros e comecei a preparação para fazer meu primeiro longa " Os Noivos ". Continuo no próximo post.
       Reinaldo Cozer, meu amigo e sócio na Aleph Filmes, Eu e Henrique, o fotógrafo. Foto tirada por Otávio de Miranda, assistente de direção. Anos 70. Filmagem do documentário " Morro da Conceição "