Para mim a década de 70 foi a mais criativa e profícua do cinema brasileiro. A política de cotas, criada para a defesa de nossos audiovisuais e que obrigava a exibir uma quantidade de filmes brasileiros por ano, acabou por favorecer e incentivar as diversas linguagens. Se voltassem hoje, jovens e dispostos a recomeçar, Walter Hugo Khouri e Carlos Hugo Christensen , cineastas ousados e criativos, por exemplo, não conseguiriam criar um obra nem fazer os filmes que fizeram. Primeiro porque a sociedade de um modo geral se tornou conservadora e hipócrita. A sexualidade e a poesia contidas em
Eros e
O Menino e o Vento seriam muito permissivas para nossos tempos, sombrios e dominados por uma linguagem televisiva e falsamente ingênua, e se não levasse os autores à prisão, os obrigariam a se calar e a fazer uma auto-censura. Anos depois do assassinato de Pasolini, da morte de Visconti , de Bunuel e de Joseph Losey , Os
3 ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ( 1905 ) de Freud voltaram a ser tabu, principalmente no que concerne à sexualidade em suas diversas formas. Essa polimorfia ( da sexualidade ) deve ser negada veementemente; isto 113 anos depois da obra escrita. A possibilidade de realização de filmes plenos e libertários ( que sejam feitos, distribuídos e vistos ) é praticamente nula. Sabendo que a produção foi facilitada pela novas técnicas mais acessíveis que não a película, foi necessário ao sistema criar um gargalo para que os filmes não sejam vistos pelo público e não funcionem como mensagem revolucionária, polêmica e verdadeiramente educativa. Existem filmes financiados com dinheiro público, por 5 milhões ou mais, que usam uma linguagem de catálogo, diluída e suspirante aos infinitos, sem a mínima verdade e vergonha na cara, que são destinados à exibição, aos festivais pré-destinados com grana e divulgação maciça. Existem por outro lado um cinema de poucos recursos com filmes feitos por e sobre as ditas minorias: negros, homossexuais, mulheres, que passam em sessões quase secretas ( uma vez por ano!!??, por mês !!!? ) em guetos de cinemas especializados e em festivais também especializados e que esterilizam qualquer mensagem e que jamais chegarão ao circuito convencional de exibição, sendo assassinados desde que nascidos. Fazer um filme hoje em dia é fácil, pode ser feito até com celular mas, divulgar a verdade contida nele é impossível. Todos tem que saber que o rei não está nu. A televisão, que em seu nascedouro tinha alguns programas educacionais, como os telecursos pela madrugada, espaço para teleteatros, roteiristas e artistas criativos, hoje nem isto tem mais, pois é perigoso para o sistema. Corre o risco das pessoas se esclarecerem e diminuir o consumo. Da manhã à noite se transformou numa máquina absurda e sofisticada de vender produtos, criar plateias imbecis ( uma máquina de fazer doidos como disse Sergio Porto ) e servir aos interesses dominantes das elites. O cinema que trata da sexualidade humana fica restrito ao gueto pornográfico com filmes tragicômicos e sem a mínima ousadia estética , poética e criativa. Esse é o tempo em que vivemos. Nos anos 70, que admiro e que trato aqui, ao se liberar o mercado ao cinema brasileiro e delimitar o raio de ação do cinema estrangeiro, se tornou possível ouvir as vozes de diferentes pessoas e ela, a década, se tornou a mais criativa do nosso cinema. Eu mesmo consegui fazer cinema por esse motivo; essa política de cotas e a abertura do mercado obrigava a se ouvir diferentes pessoas. Gente genial como o Carlão Reichenbach, culto e anárquico ao mesmo tempo; atrizes lindas como Matilde Mastrangi e de suave beleza como Aldine Muller; primitivos geniais como o José Mojica Marins ; poetas como Ozualdo Candeias e o Fernando Cony Campos; enfim nos anos 70 obrigou-se a revelar as diferenças, pois no mínimo noventa filmes por ano eram necessários para preencher a cota e serem efetivamente exibidos e vistos pela população. Deixamos nestes anos de ser estrangeiros em nossa própria terra e ao nos vermos nas telas nossa auto-estima cresceu. Fora os curtas metragens sobre temas brasileiros que obrigatoriamente passavam antes das sessões. E o que se via? Se via um Brasil com todas as suas contradições e belezas. Até um negro como eu, suburbano e sonhador, depois de trabalhar por anos como técnico em inúmeros filmes, no finalzinho da década, em 1979.se arvorou a fazer autoria e a dar sua mensagem. Desta forma surgiu
Os Noivos meu primeiro longa metragem. Havia aberto a Aleph Filmes com Otávio de Miranda e Reinaldo Cozer; estes com Adnor Pitanga da Scorpius Filmes e contando com a generosidade dos atores Reinaldo Gonzaga e Neila Tavares, que confiando no projeto trabalharam por valores inferiores aos do mercado, viabilizaram assim a produção, assim como os técnicos, fotógrafos, cenógrafos e figurinistas. Filmado em 21 dias e editado em tempo recorde, o filme rendeu o necessário para que desse algum lucro, se pagasse e ainda levasse prêmios e reconhecimentos como o de melhor roteiro pela Associação Paulista de Críticos de Arte ( APCA ). Fazer cinema criativo e comercial ao mesmo tempo hoje em dia é impossível. O império está mordendo fundo. Todo o dinheiro vai para o exterior para sustentar uma imensa máquina de guerra.Aqui só existimos em guetos. Essa é a política do império no mundo todo. Não existe lugar para uma arte autêntica como a canção, a literatura ou o cinema italiano, francês, argelino, sueco, brasileiro. Tudo precisa ser destruído rapidamente em nome de uma globalização, de um cinema pasteurizado como se tornou o cinema dos poucos e criativos cineastas que restaram. Somente o cinema do império e de quem fala aquela linguagem pasteurizada e falsa interessa. Criaram no mundo gerações suicidas, que negam e têm vergonha das suas identidades e diferenças. O que havia de revolucionário na feminilidade, na negritude e na homossexualidade foi domesticado.Como a pobre menina da padaria à qual me refiro no post anterior e que se recusava a me ver por eu ser negro, em plena Lapa carioca em um país miscigenado e repleto de diferenças. As pessoas tem medo de suas bundas, de seus sovacos, de seus excrementos e até de suas lágrimas. Julgam que o colonizador não fede. Ao enclausurar todas as faixas de criatividades aos guetos, iniciam um processo de
apartheid onde todo mundo sonha em sair dele em se livrar desta prisão e ganhar um Oscar, ficando semelhante ao neocolonizador. Esse é o ideal que é perseguido por todos que conseguem sair do buraco em que foram jogados. Fazer filmes para ganhar o Oscar, vamos ver quem vai ser o primeiro a ser comprado, é o ideal do cinema brasileiro atual, é o ideal de quaisquer dos filmes feitos com dinheiro publico, em geral na faixa de milhões e é o ideal do cinema comercial no mundo todo. Fazer filmes para ganhar o Oscar. Filmes de planos rápidos e comerciais para evitar a reflexão, ou pastiches mal estudados de filmes antigos refeitos com
glamour superficial. Ninguém se arrisca e o medo da verdade é geral. É tudo premeditado, previsível e falso. A verdade, que décadas atrás estava contida em um Fellini, um Bunuel e um Bergman por exemplo, sumiu. A coisa é muito simples e ninguém quer ver. É Marx , pois " farinha pouca, meu pirão primeiro" , e é Freud, " tem que se descarregar o ódio em cima de alguém " . Esta é a época em que vivemos e isto ainda vai levar muitas décadas até ser modificado. No próximo post vou tentar esmiuçar melhor essa situação.
Filmando um plano de Os Noivos; na câmera o Diretor de Fotografia Edson Santos - 1979