domingo, 9 de setembro de 2018

7 - Ainda sobre Khouri, Pelé, Miguel Borges, Costinha, Rui Santos, Perry Salles e muito mais

À semelhança de Christensen, Khouri era muito culto. Adorava Jazz e conhecia literatura, cinema e artes profundamente. Andávamos muito por São Paulo de carro na noite e depois em sua casa ficávamos no segundo andar da cobertura, no escritório, escutando Jazz e tomando Wkisky com Ginseng. De jazz adorava o Swing e principalmente Lester Young mas, também curtia muito Coltrane que ele definia como um jazz expressionista. Seu cinema nasce muito do jazz mas também dos filmes japoneses de Ozu e outros que ele assistia muitas vezes durante a semana Em São Paulo nesta época ( anos 60 e 70 ) existiam muitos cinemas só de filmes nipônicos, pois a colônia japonesa era imensa. A descoberta do cinema italiano dos anos 60, notadamente Antonioni e Fellini  influenciaram muito seus trabalhos mas, se os esmiuçarmos mais profundamente vemos que a cidade de São Paulo, seu gigantismo sem estilo, prédios emaranhados e pessoas solitárias, afinal como disse Nelson Rodrigues: "  A pior forma de solidão é a companhia de um Paulista " é puro Khouri. Isso é patente em seus filmes e chega ao ápice em Eros onde na abertura ele define seu cinema, a si e a cidade. Outro componente importante em sua obra foi Fitzgerald. Adorava o escritor e discutiamos muito  sobre os livros como Suave é a Noite, O Grande Gatsby  e sobretudo sobre The Crack Up  ou A Demolição uma pequena obra prima irretocável que muito admirávamos e que se enquadra perfeitamente na definição de seu cinema assim como D.H. Lawrence e os trabalhos de Paul Delvaux, os quadros metafísicos de Di Chirico além dos neo-románticos Pre-Rafaelistas.Outro autor muito discutido por nós era Strindberg.  A Dança da Morte e principalmente o livro autobiográfico Inferno. Resumindo: Khouri era um intelectual paulistano típico. Um cara extremamente sensível que refletia a cidade que amava, via o mundo através de uma ótica pessoal assimilada a partir de sua cidade. Khouri me fascinava muito, me lembro que uma vez de carona em seu carro lhe falei: Cara eu por vezes não acredito que estou ao seu lado conversando com o diretor dos filmes que assisti em toda a minha juventude; ele ternamente me falou: você tem sorte porque eu falo. Quando me esforcei e trouxe ao Brasil o Josef Von Sternberg ficava horas falando com ele e ele nada respondia era um silêncio absoluto e eu quase pirava.Nos seus últimos anos de vida estávamos afastados pois eu queria como sempre quero e um dia vou conseguir, esquecer o cinema. Liguei para ele, parecendo adivinhar que algo ia acontecer. A Nadir, sua esposa atendeu e disse que ele não falava mais ao telefone. Disse  a ela que ia mandar umas coisas que tinha: roteiros de As Amorosas, Noite Vazia, recortes de jornais etc. por sedex , o que fiz. Logo depois soube de sua morte e posteriormente a de Nadir. Mas, para mim Khouri não morreu. Me vejo sempre a seu lado no banco do carona, ele conversando comigo e fazendo observações sobre tudo com humor, interesse e alegria invejáveis, como nunca vi igual.
Após Khouri fiz ainda muitos trabalhos como técnico o que é muito enriquecedor. O convívio com as equipes gera momentos de grande emoção e conhecimento. Conviver no dia a dia das filmagens com homens como o Rui Santos, com quem trabalhei em O Desconhecido, é uma honra, ainda mais quando se tem no elenco atores como o Luiz Linhares e a paisagem de Cataguases, terra de Humberto Mauro, onde foi feito o filme. Em Pedro Mico, de Ipojuca Pontes, aproveitava e perguntava muita coisa pro Pelé. Um dia ficamos um tempão falando sobre o John Houston, por quem ele havia sido dirigido várias vezes. Existem alguns diretores pra quem a gente sente prazer em trabalhar. Pra quem a gente se deixar, paga  até pra trabalhar, pois se sente bem ao lado deles. Entre esses incluo o Miguel Borges, sempre irônico, divertido e inteligente. Nos filmes do Miguel entre os que trabalhei tais como Barão Otelo no Barato dos Bilhões, O Caso Cláudia, Consorcio de Intrigas entre outros, ocorriam sempre coisas muito interessantes. Lembro de uma cena de um filme que atuavam alguns anões, mas eles sempre eram convocados e nunca filmavam. Acredito que por problemas de luz exterior ou coisa parecida. Um dia em pleno set , o Miguel estava dirigindo e o diretor de produção gritou de longe: " Miguel qual é a previsão para os anões ? " O Miguel ainda atônito parou, pensou um pouco e respondeu enfaticamente " não vão crescer nunca ! "
Em Dora Doralina de Pèrry Salles filmamos no Rio São Francisco, na barca Benjamim Guimarães, onde também nos hospedamos. Depois fomos para Fortaleza, Quixadá, Qixeramobim, Sobral além do Rio de Janeiro e da cidade de Pirapora em Minas Gerais. Em O Homem de Seis milhões contra as Panteras onde fui assistente de Luiz Antonio Piá via o Costinha dar uma aula magistral de interpretação, criatividade e improvisação inesquecíveis.
Eu aos 36 anos. Passando as falas do roteiro com Pelé em Pedro Mico, filme de Ipojuca Pontes.
 

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