Os anos de 1971 e 1972 foram muito agitados. Praticamente encerraram minha fase inicial de aprendizagem; trabalhei para algumas produtoras e fiz mais outros filmes curtos. Foi uma fase também em que passei uma temporada com o cinema novo. Pouco antes de sair do Banco Lowndes me encontrei na Avenida Rio Branco,esquina com a Rua São José, com Glauber Rocha. Ele ia para a Difilm em direção à Cinelândia e fomos conversando, depois de eu ter me apresentado e dito que queria dirigir filmes. Conversamos sobre José Mojica Marins que ele resumidamente definiu como um primitivo. O papo sobre cinema brasileiro continuou até a Cinelândia onde ele me aconselhou a procurar um emprego na Difilm a distribuidora do cinema novo e continuasse a minha formação em cinema. Sem dinheiro pra nada, pois estava desempregado após o filme do Christensen, eu morava durante a semana ( para não gastar com condução até Madureira ) no centro da cidade na Avenida Presidente Vargas, em frente a zona do meretrício, numa comunidade meio "hippie" chamada "Feira do Lixo", Nesta comunidade fiz grandes amigos tais como o Roberto Moura que depois se tornou num importante crítico de música popular. Com moradores da comunidade e amigos, notadamente Antonio Jaime Soares, publicitário que cenografou as cenas, fiz um curta metragem experimental chamado " 1970 " o qual gosto muito, e que tenho boas recordações; vide foto abaixo. Nesta época havia sido criada a loteria esportiva. Precisando de trabalho, fiz um curso de furar cartões da loteria, na Caixa Econômica. Fui trabalhar em uma das loterias na Rua Paulo Barreto em Botafogo.Nesta unidade quem fazia apostas semanais sempre era o Luiz Carlos Barreto, que morava nas proximidades, na Rua 19 de Fevereiro e trabalhava na sede de sua distribuidora a Difilm na Rua das Palmeiras 15 , um pouco mais acima. Fiquei pouco tempo na lotérica pois conversando com o Barreto acabei por ir trabalhar na Difilm e na Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, nos anos de 1971 e 1972. Meu primeiro trabalho alí foi de telefonista e ajudante da Eliana Cobbet ( esposa do cineasta William Cobbet ) que fazia das tripas coração na conferência dos borderaux de distribuição, e com os resultados auferidos efetuava os pagamentos da empresa etc. Meu trabalho no primeiro filme alí foi no Barão Otelo, que citei no post anterior e depois em Os Sóis da Ilha de Páscoa onde fui Assistente de produção no Rio de Janeiro e em Ouro Preto, ajudando o Billy Davis, neste mesmo filme, dirigido por Pierre Kast e que contava no elenco brasileiro com atores como Norma Bengell, Rui Guerra, Zózimo Bulbul e outros. Ainda na Difilm e posteriormente na Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas trabalhei como continuísta em A Emboscada, curta metragem de Bruno Barreto e no dia a dia da produtora e da distribuidora conheci muita gente tais como Adélia Sampaio, Walter Lima Junior, Roque Araujo, Julio Romiti, Nelson Pereira dos Santos, e outros.O início dos anos setenta foram os da consolidação destas produtoras e alí se trabalhava muito.A Lucy Barreto dirigia até a Kombi quando necessário e Luiz Carlos Barreto trabalhava muito também no se desdobrar entre a produção e a distribuição dos filmes. Foi uma fase para mim também muito importante pelos muitos conhecimentos que fiz na Rua das Palmeiras 15, sede da Difilm local de que guardo boas recordações e onde conheci Murilo Sales, Bruno Barreto, Miguel Borges, Leon Hirszman e dezenas de técnicos e diretores que por alí circulavam, alguns que me fogem à memoria no momento mas que por alí passaram e constituiram a turma do cinema novo. Após esta fase parti para a feitura de mais alguns curta metragens que narrarei no próximo post.
domingo, 16 de setembro de 2018
domingo, 9 de setembro de 2018
7 - Ainda sobre Khouri, Pelé, Miguel Borges, Costinha, Rui Santos, Perry Salles e muito mais
À semelhança de Christensen, Khouri era muito culto. Adorava Jazz e conhecia literatura, cinema e artes profundamente. Andávamos muito por São Paulo de carro na noite e depois em sua casa ficávamos no segundo andar da cobertura, no escritório, escutando Jazz e tomando Wkisky com Ginseng. De jazz adorava o Swing e principalmente Lester Young mas, também curtia muito Coltrane que ele definia como um jazz expressionista. Seu cinema nasce muito do jazz mas também dos filmes japoneses de Ozu e outros que ele assistia muitas vezes durante a semana Em São Paulo nesta época ( anos 60 e 70 ) existiam muitos cinemas só de filmes nipônicos, pois a colônia japonesa era imensa. A descoberta do cinema italiano dos anos 60, notadamente Antonioni e Fellini influenciaram muito seus trabalhos mas, se os esmiuçarmos mais profundamente vemos que a cidade de São Paulo, seu gigantismo sem estilo, prédios emaranhados e pessoas solitárias, afinal como disse Nelson Rodrigues: " A pior forma de solidão é a companhia de um Paulista " é puro Khouri. Isso é patente em seus filmes e chega ao ápice em Eros onde na abertura ele define seu cinema, a si e a cidade. Outro componente importante em sua obra foi Fitzgerald. Adorava o escritor e discutiamos muito sobre os livros como Suave é a Noite, O Grande Gatsby e sobretudo sobre The Crack Up ou A Demolição uma pequena obra prima irretocável que muito admirávamos e que se enquadra perfeitamente na definição de seu cinema assim como D.H. Lawrence e os trabalhos de Paul Delvaux, os quadros metafísicos de Di Chirico além dos neo-románticos Pre-Rafaelistas.Outro autor muito discutido por nós era Strindberg. A Dança da Morte e principalmente o livro autobiográfico Inferno. Resumindo: Khouri era um intelectual paulistano típico. Um cara extremamente sensível que refletia a cidade que amava, via o mundo através de uma ótica pessoal assimilada a partir de sua cidade. Khouri me fascinava muito, me lembro que uma vez de carona em seu carro lhe falei: Cara eu por vezes não acredito que estou ao seu lado conversando com o diretor dos filmes que assisti em toda a minha juventude; ele ternamente me falou: você tem sorte porque eu falo. Quando me esforcei e trouxe ao Brasil o Josef Von Sternberg ficava horas falando com ele e ele nada respondia era um silêncio absoluto e eu quase pirava.Nos seus últimos anos de vida estávamos afastados pois eu queria como sempre quero e um dia vou conseguir, esquecer o cinema. Liguei para ele, parecendo adivinhar que algo ia acontecer. A Nadir, sua esposa atendeu e disse que ele não falava mais ao telefone. Disse a ela que ia mandar umas coisas que tinha: roteiros de As Amorosas, Noite Vazia, recortes de jornais etc. por sedex , o que fiz. Logo depois soube de sua morte e posteriormente a de Nadir. Mas, para mim Khouri não morreu. Me vejo sempre a seu lado no banco do carona, ele conversando comigo e fazendo observações sobre tudo com humor, interesse e alegria invejáveis, como nunca vi igual.
Após Khouri fiz ainda muitos trabalhos como técnico o que é muito enriquecedor. O convívio com as equipes gera momentos de grande emoção e conhecimento. Conviver no dia a dia das filmagens com homens como o Rui Santos, com quem trabalhei em O Desconhecido, é uma honra, ainda mais quando se tem no elenco atores como o Luiz Linhares e a paisagem de Cataguases, terra de Humberto Mauro, onde foi feito o filme. Em Pedro Mico, de Ipojuca Pontes, aproveitava e perguntava muita coisa pro Pelé. Um dia ficamos um tempão falando sobre o John Houston, por quem ele havia sido dirigido várias vezes. Existem alguns diretores pra quem a gente sente prazer em trabalhar. Pra quem a gente se deixar, paga até pra trabalhar, pois se sente bem ao lado deles. Entre esses incluo o Miguel Borges, sempre irônico, divertido e inteligente. Nos filmes do Miguel entre os que trabalhei tais como Barão Otelo no Barato dos Bilhões, O Caso Cláudia, Consorcio de Intrigas entre outros, ocorriam sempre coisas muito interessantes. Lembro de uma cena de um filme que atuavam alguns anões, mas eles sempre eram convocados e nunca filmavam. Acredito que por problemas de luz exterior ou coisa parecida. Um dia em pleno set , o Miguel estava dirigindo e o diretor de produção gritou de longe: " Miguel qual é a previsão para os anões ? " O Miguel ainda atônito parou, pensou um pouco e respondeu enfaticamente " não vão crescer nunca ! "
Em Dora Doralina de Pèrry Salles filmamos no Rio São Francisco, na barca Benjamim Guimarães, onde também nos hospedamos. Depois fomos para Fortaleza, Quixadá, Qixeramobim, Sobral além do Rio de Janeiro e da cidade de Pirapora em Minas Gerais. Em O Homem de Seis milhões contra as Panteras onde fui assistente de Luiz Antonio Piá via o Costinha dar uma aula magistral de interpretação, criatividade e improvisação inesquecíveis.
Após Khouri fiz ainda muitos trabalhos como técnico o que é muito enriquecedor. O convívio com as equipes gera momentos de grande emoção e conhecimento. Conviver no dia a dia das filmagens com homens como o Rui Santos, com quem trabalhei em O Desconhecido, é uma honra, ainda mais quando se tem no elenco atores como o Luiz Linhares e a paisagem de Cataguases, terra de Humberto Mauro, onde foi feito o filme. Em Pedro Mico, de Ipojuca Pontes, aproveitava e perguntava muita coisa pro Pelé. Um dia ficamos um tempão falando sobre o John Houston, por quem ele havia sido dirigido várias vezes. Existem alguns diretores pra quem a gente sente prazer em trabalhar. Pra quem a gente se deixar, paga até pra trabalhar, pois se sente bem ao lado deles. Entre esses incluo o Miguel Borges, sempre irônico, divertido e inteligente. Nos filmes do Miguel entre os que trabalhei tais como Barão Otelo no Barato dos Bilhões, O Caso Cláudia, Consorcio de Intrigas entre outros, ocorriam sempre coisas muito interessantes. Lembro de uma cena de um filme que atuavam alguns anões, mas eles sempre eram convocados e nunca filmavam. Acredito que por problemas de luz exterior ou coisa parecida. Um dia em pleno set , o Miguel estava dirigindo e o diretor de produção gritou de longe: " Miguel qual é a previsão para os anões ? " O Miguel ainda atônito parou, pensou um pouco e respondeu enfaticamente " não vão crescer nunca ! "
Em Dora Doralina de Pèrry Salles filmamos no Rio São Francisco, na barca Benjamim Guimarães, onde também nos hospedamos. Depois fomos para Fortaleza, Quixadá, Qixeramobim, Sobral além do Rio de Janeiro e da cidade de Pirapora em Minas Gerais. Em O Homem de Seis milhões contra as Panteras onde fui assistente de Luiz Antonio Piá via o Costinha dar uma aula magistral de interpretação, criatividade e improvisação inesquecíveis.
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| Eu aos 36 anos. Passando as falas do roteiro com Pelé em Pedro Mico, filme de Ipojuca Pontes. |
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