Em um radinho deste escutávamos os programas semanais do lendário Paulo Santos; " Tempo de Jazz " e " Encontro com o Jazz" ambos na Radio MEC. Era um lenitivo para o sofrimento cotidiano. Não usávamos drogas, só bebíamos umas cachaças e uns " cuba libres " acompanhados de maços e maços de cigarros sem filtro e cervejas, quando sobrava uma grana. Os programas de Paulo Santos eram extremamente didáticos e nos viciamos assim no jazz, como alternativa para a falta de perspectiva naquele solitário e quente subúrbio carioca. Ora, todo vício tem seu preço e acabamos, eu e o Edinho Carvalho, amigo que perdi a cerca de dois anos passados, comprando uma vitrola velha e os primeiros discos de Jazz : Wes Montgomery, Sinatra e Basie, Coltrane e outros. Alguns discos ainda conservo até hoje tais como os do Basie. foto abaixo:
O Jazz em vídeo veio mais tarde.Os primeiros adquiridos em New York, em frente ao Village Vanguard, de um colecionador. Mas o primeiro memso foi um VHS que veio por meio de minha filha Ana Julieta , quando estudava balé na " Steps " da Broadway . Foi o " Ladies sings the Blues " em VHS com Lena Horne, Billie Holiday , Sarah Vaughan, Ethel Waters e Bessie Smith. Muitas das indicações de discos vieram também por meio do Walter Hugo Khouri, outro colecionador e aficcionado. Os demais videos foram no clube de jazz que criei junto com meu amigo Eduardo Franklin Villela Souto , também colecionador. Faziamos mostras em vários locais. Centro Cultural do Banco do Brasil, Castelinho do Flamengo, Museu do Telefone e outros. Acabei por ter centenas de video-lasers e VHS que cobrem praticamente tudo de jazz em imagens existentes.Não tenho um músico preferido, mudo sempre de estilo e escuto de tudo. Sempre escuto de acordo com o estado de humor em que me encontro. Tem épocas que escuto muito Coltrane, Monk. Bill Evans e cantores como Johnny Hartman e Nina Simone. Mas de repente volto para o Swing e curto Billie, Basie, Ellington, Cab Calloway, Billy Eckstine e Sarah Vaughan.. Jazz pra mim é como definia Sartre, uma espécie de bálsamo, um lenitivo para o sofrimento diário e uma forma também de comemorar a alegria cotidiana quando ela aparece. Meu estado de humor é que rege minhas escolhas, entre centenas de discos e dvds de Jazz.
O Jazz tem um lado cruel de denuncia da questão social e da negritude. Fats Waller, para mim , é o exemplo máximo de uma analogia entre o sofrimento do negro e o Jazz. Nos EUA foi considerado um entertainer, um artista menor, um cômico desprovido de sentido. Morreu jovem, solitário, gordo, cansado e abandonado no vagão de um trem. Foi, na verdade, assassinado pelo mundo do entretenimento, sem que fosse reconhecida sua genialidade, o que só ocorreu posteriormente. Isto também sucedeu com a Billie Holiday, com Charlie Parker, Mingus, Monk e outros. A música negra americana e o Jazz , talvez sejam o maior legado que a América deixará ao mundo. Mas eles mesmos teimam em não ver sua importância, pois ela nasce desse sofrimento e também o denuncia. Scott Fitzgerald, outro aficcionado pelo jazz, dizia que não há segundo ato na vida dos americanos. Ele próprio foi uma prova disso. Derrubado pelo alcoolismo e outras tragédias, nunca mais se levantou. Quando morreu em 1940, muitos se espantaram de que ainda estivesse vivo. A América é cruel com seus gênios, ainda mais se negros. A Ku Klux Kan queimava cruzes na porta da casa de Nat King Cole e ele nunca conseguiu um anunciante sequer para seu maravilhoso " Nat King Cole Show " . A Madison Avenue e seus publicitários não gostam de negros. Nat foi na verdade também assassinado aos quarenta e poucos anos. Sua presença linda e criativa na Tv assustava e soava como um denuncia das causas desse sofrimento, que o jazz teima em colocar em primeiro plano . Segue abaixo duas fotos minhas ainda quando adulto jovem entre 30 e 40 anos no Teatro Apollo em New York na Rua 125 no Harlem, aguardando a hora de entrar neste mais importante templo do jazz no mundo, onde pontificaram Duke Ellington, Ella Fitzgerald e centenas de outros grandes nomes.









