domingo, 20 de janeiro de 2019

12 - O Jazz. De como me tornei um aficionado. A importância do Jazz como reflexo da angústia existencial e da negritude.

O jazz surgiu em minha vida em Madureira, na passagem da adolescência para adulto jovem. A partir dos quinze anos comecei a ler muito.As idas até o centro da cidade para trabalhar nos anos 60 e 70 levavam horas e ler no ônibus ou no trem era uma forma de aumentar o conhecimento e passar o tempo. Alugava muito livro na Biblioteca Castro Alves na Av. Treze de Maio na Cinelândia. Ali  conheci praticamente todo o essencial da obra freudiana e marxista, alem dos grandes nomes da literatura mundial. O Ser e o Nada  e A Náusea eram dois livros de Jean Paul Sartre que me remetiam ao Jazz. Em A Náusea o sentimento de desgarramento do personagem com o mundo se dava através de uma musica cantada pela Billie Holiday que o personagem escutava. A leitura deste livro marcou profundamente a mim, ao Edson Dantas e ao Edinho Francisco de Carvalho, amigos também jovens da época e que eu encontrava no " Buraco Quente " na Rua Capitão Macieira em Madureira nos anos 60. Neste grupo de adolescentes havia ainda o "Moringa " e seu irmão o Beto e outros cujos nomes me fogem à memória. Nós ficávamos acordados até tarde na rua pois o calor insuportável obrigava a isto.Ouvíamos músicas em cima de uma caixa d`água, em um rádio de pilha marca " Spica ". Recentemente encontrei uma foto deste rádio e reproduzo abaixo:

Em um radinho deste escutávamos os programas semanais do lendário Paulo Santos; " Tempo de Jazz " e "  Encontro com o Jazz" ambos na Radio MEC. Era um lenitivo para o sofrimento cotidiano. Não usávamos drogas, só bebíamos umas cachaças e uns " cuba libres " acompanhados de maços e maços de cigarros sem filtro e cervejas, quando sobrava uma grana. Os programas de Paulo Santos eram extremamente didáticos e nos viciamos assim no jazz, como alternativa para a falta de perspectiva naquele solitário e quente subúrbio carioca. Ora, todo vício tem seu preço e acabamos, eu e o Edinho Carvalho, amigo que perdi a cerca de dois anos passados, comprando uma vitrola velha e os primeiros discos de Jazz : Wes Montgomery, Sinatra e Basie, Coltrane  e outros. Alguns discos ainda conservo até hoje tais como os do Basie. foto abaixo:  
  O Jazz em vídeo veio mais tarde.Os primeiros adquiridos em New York, em frente ao Village Vanguard, de um colecionador. Mas o primeiro memso foi um VHS que veio por meio de minha filha Ana Julieta , quando estudava balé na  " Steps " da Broadway . Foi o " Ladies sings the Blues " em VHS com Lena Horne, Billie Holiday  , Sarah Vaughan, Ethel Waters e Bessie Smith. Muitas das indicações de discos vieram também por meio do Walter Hugo Khouri, outro colecionador e aficcionado. Os demais videos foram no clube de jazz que criei junto com meu amigo Eduardo Franklin Villela Souto , também colecionador. Faziamos mostras em vários locais. Centro Cultural do Banco do Brasil, Castelinho do Flamengo, Museu do Telefone e outros. Acabei por ter centenas de video-lasers  e VHS  que cobrem praticamente tudo de jazz em imagens existentes.
Não tenho um músico preferido, mudo sempre de estilo e escuto de tudo. Sempre escuto de acordo com o estado de humor em que me encontro. Tem épocas que escuto muito Coltrane, Monk. Bill Evans e cantores como Johnny Hartman e Nina Simone. Mas de repente volto para o Swing e curto Billie, Basie, Ellington, Cab Calloway, Billy Eckstine e Sarah Vaughan.. Jazz pra mim é como definia Sartre, uma espécie de bálsamo, um lenitivo para o sofrimento diário e uma forma também de comemorar a alegria cotidiana quando ela aparece. Meu estado de humor é que rege minhas escolhas, entre centenas de discos e dvds de Jazz.
O Jazz tem um lado cruel de denuncia da questão social e da negritude. Fats Waller, para mim , é o exemplo máximo de uma analogia entre o sofrimento do negro e o Jazz. Nos EUA foi considerado um entertainer, um artista menor, um cômico desprovido de sentido. Morreu jovem, solitário, gordo, cansado e abandonado no vagão de um trem. Foi, na verdade, assassinado pelo mundo do entretenimento, sem que fosse reconhecida sua genialidade, o que só ocorreu posteriormente. Isto também sucedeu com a Billie Holiday, com Charlie Parker, Mingus, Monk e outros. A música negra americana e o Jazz , talvez sejam o maior legado que a América deixará ao mundo. Mas eles mesmos teimam em não ver sua importância, pois ela nasce desse sofrimento e também o denuncia. Scott Fitzgerald, outro aficcionado pelo jazz, dizia que não há segundo ato na vida dos americanos. Ele próprio foi uma prova disso. Derrubado pelo alcoolismo e outras tragédias, nunca mais se levantou. Quando morreu em 1940, muitos se espantaram de que ainda estivesse vivo. A América é cruel com seus gênios, ainda mais se negros. A Ku Klux Kan queimava cruzes na porta da casa de Nat King Cole e ele nunca conseguiu um anunciante sequer para seu maravilhoso " Nat King Cole Show " . A Madison Avenue  e seus  publicitários não gostam de negros. Nat foi na verdade  também assassinado aos quarenta e poucos anos. Sua presença linda e criativa na Tv assustava e soava como um denuncia das causas desse sofrimento, que o jazz teima em colocar em primeiro plano . Segue abaixo duas fotos minhas ainda quando adulto jovem entre 30 e 40 anos no Teatro Apollo  em  New York na Rua 125 no Harlem, aguardando a hora de entrar neste mais importante templo do jazz no mundo, onde pontificaram  Duke Ellington, Ella Fitzgerald e centenas de outros grandes nomes.

      É isso aí. No próximo post volto a falar sobre cinema e principalmente sobre Longa Noite do Prazer um filme muito influenciado pelo meu amor e fixação ao jazz


terça-feira, 6 de novembro de 2018

11 - Ainda Os Noivos e considerações filosóficas e psicanalíticas sobre os anos 60 e 70

Os Noivos, meu primeiro longa foi um amálgama de toda a década de 70 . Um filme intimista, tinha o Reinaldo Gonzaga, a maravilhosa Neila Tavares e Maria Lucia Dahl em uma participação especial, além de Sonia Oiticica e Norma Sueli. É o processo de ajuste de contas de um casal, um filme que realizei no início de meu longo processo psicanalítico e reflete a questão da impossibilidade do amor no sentido lacaniano da arte de dar o que não se tem a alguém que não é. Eu estava muito fascinado com O Último Tango em Paris e lia muito os estruturalistas, Deleuze, Lacan, Foucault, entre muitos.... aí resolvi escrever o roteiro. O filme tinha a Neila Tavares, uma morena linda e ótima atriz que eu sempre havia sonhado dirigir . Tinha o Reinaldo Gonzaga, um ator incrível que expressava bem momentos de indecisão, etc. Ficou pronto em 79 e o Khouri me presenteou fazendo uma bela introdução ao meu primeiro trabalho, no release do filme. " Acho que Afranio Vital, antes mesmo de realizar seu primeiro filme, era já muito mais que uma simples esperança para o cinema brasileiro, pelo seu empenho, pelo seu profundo conhecimento da arte a que se dedicou como também pelo seu excelente trabalho de assistente e curta-metragista e também como crítico de superior cultura e informação a nível dificilmente encontrado no país. A realização deste primeiro longa-metragem confirmará certamente todas as qualidades que os que convivem ou trabalham com ele já conhecem de antemão. Esperamos que seja o começo de uma carreira pessoal e profundamente empenhada que é certamente seu propósito. De nossa parte, temos certeza que assim será" WALTER HUGO KHOURI. Distribui o filme no Brasil com a Embrafilme e em grande parte da América do Sul com distribuidores argentinos. Com ele ganhei o prêmio de melhor roteiro pela Associação Paulista de Críticos de Arte
Em Oito e Meio de Fellini, um diretor de cinema pergunta ao cardeal em uma audiência: Sr. Cardeal, por que eu não sou feliz? e o Cardeal responde: Mas quem te disse que o homem veio ao mundo para ser feliz. Acredito particularmente que o que queremos nós nem sabemos se existe nem sabemos o que é. O " falus ", o " bem supremo "  ou  "o objeto "  ou  " a arma absoluta " não existe, ele é criado pela entrada do homem na linguagem que ao nomear as coisas fazem crer que elas existem autonomamente e são alcançáveis aos nossos comuns sentidos. Os anos 60 e 70 foram anos extremamente utópicos tanto no terreno do social quanto do sexual nos fazendo crer que existiria uma "felicidade" que seria alcançada ainda dentro daqueles 20 anos das duas décadas. Nunca se trepou tanto e se liberalizou tanto as sexualidades de formas tão diversificadas, do grotesco ao arabesco: saunas e cinemas com programação eróticas cheios, a publicidade vendendo cigarros, bebidas, carros etc os objetivos por trás de tudo isto era o de alcançar o " bem supremo " de imediato. No cinema social e político idem. O sertão viraria mar e o mar viraria sertão. Filmes contra a corrente como Noite Vazia e Os Noivos que denunciavam o vazio que se encontrava no fim dessa desenfreada busca através da sexualidade, além de serem irônicos eram mal vistos pois cortavam o barato dos sonhadores.Qualquer tentativa de se criticar essa visão idealista e suicida ( perdi muitos amigos e vi muitos jovens colegas de faculdade sumirem por susto, bala ou vício ) se fosse na política seria considerada fascista e de direita como no meu caso e de Khouri, críticos ferrenhos desse idealismo infantil; quando não fosse ridicularizado como em muitas críticas ao meu filme de estreia. Somente depois quando em " Terra em Transe " Glauber Rocha coloca o dedo na ferida da ingenuidade política da esquerda dos anos 60 e seus sonhos quixotescos de revolução é que parte da crítica se acalmou e começaram a ver o pensamento estrutural e a filosofia estruturalista como uma importante releitura de Freud ( Lacan - Escritos ) e de Marx (Althusser - Ler o Capital ) eu Khouri, Biáfora e alguns poucos críticos esclarecidos da época dávamos grandes gargalhadas diante de tanto sociologismo e psicologismo imbecíl e pretensioso.
Por estes e outros motivos não se podia continuar na pesquisa a partir do intimismo de Os Noivos e de Noite Vazia que preso ainda a certo convencionalismo não conseguia transmitir com maior veracidade a questão estrutural que precede aos sujeitos. Isto veio a ser conseguido por Khouri a partir de O Corpo Ardente e culminou com O Desejo e no meu caso na ruptura que foi para mim passar do intimismo do primeiro filme ao marginalismo de Longa Noite do Prazer, meu segundo filme. Ainda essas digressões serão temas do próximo post.
       
                                  
Esq./Dir. Tião Macalé, Eu e Haroldo de Oliveira. Filmagem de uma cena de " Longa Noite do Prazer "          

domingo, 21 de outubro de 2018

10 - Cinema brasileiro nos anos 70. Os mais criativos e produtivos anos do nosso cinema.Algumas digressões e a realização de " Os noivos"

Para mim a década de 70 foi a mais criativa e profícua do cinema brasileiro. A política de cotas, criada para a defesa de nossos audiovisuais e que obrigava a exibir uma quantidade de filmes brasileiros por ano, acabou por favorecer e incentivar as diversas linguagens. Se voltassem hoje, jovens e dispostos a recomeçar, Walter Hugo Khouri e Carlos Hugo Christensen , cineastas ousados e criativos, por exemplo, não conseguiriam criar um obra nem fazer os filmes que fizeram. Primeiro porque a sociedade de um modo geral se tornou conservadora e hipócrita. A sexualidade e a poesia contidas em Eros e O Menino e o Vento seriam muito permissivas  para nossos tempos, sombrios e dominados por uma linguagem televisiva  e falsamente ingênua, e se não levasse os autores à prisão, os obrigariam a se calar e a fazer uma auto-censura. Anos depois do assassinato de Pasolini, da morte de Visconti , de Bunuel e de Joseph Losey , Os 3 ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ( 1905 ) de Freud voltaram a ser tabu, principalmente no que concerne à sexualidade em suas diversas formas. Essa polimorfia ( da sexualidade ) deve ser negada veementemente; isto 113 anos depois da obra escrita. A possibilidade de realização de filmes plenos e libertários  ( que sejam feitos, distribuídos e vistos ) é praticamente nula. Sabendo que a produção foi facilitada pela novas técnicas mais acessíveis que não a película, foi necessário ao sistema criar um gargalo para que os filmes não sejam vistos pelo público e não funcionem como mensagem revolucionária, polêmica e verdadeiramente educativa. Existem filmes financiados com dinheiro público, por 5 milhões ou mais, que usam uma linguagem de catálogo, diluída e suspirante aos infinitos, sem a mínima verdade e vergonha na cara, que são destinados à exibição, aos festivais pré-destinados com grana e divulgação maciça. Existem por outro lado um cinema de poucos recursos com filmes feitos por e sobre as ditas minorias: negros, homossexuais, mulheres, que passam em sessões quase secretas  ( uma vez por ano!!??, por mês !!!? ) em guetos de cinemas especializados e em festivais também especializados e que esterilizam qualquer mensagem e que jamais chegarão ao circuito convencional de exibição, sendo assassinados desde que nascidos. Fazer um filme hoje em dia é fácil, pode ser feito até com celular mas, divulgar a verdade contida nele é impossível. Todos tem que saber que o rei não está nu. A televisão, que em seu nascedouro tinha alguns programas educacionais, como os telecursos pela madrugada, espaço para teleteatros, roteiristas e artistas criativos, hoje nem isto tem mais, pois é perigoso para o sistema. Corre o risco das pessoas se esclarecerem e diminuir o consumo. Da manhã à noite se transformou numa máquina absurda e sofisticada de vender produtos, criar plateias imbecis ( uma máquina de fazer doidos como disse Sergio Porto ) e servir aos interesses dominantes das elites. O cinema que trata da sexualidade humana fica restrito ao gueto pornográfico com filmes tragicômicos e sem a mínima ousadia estética , poética e criativa. Esse é o tempo em que vivemos. Nos anos 70, que admiro e que trato aqui,  ao se liberar o mercado ao cinema brasileiro e delimitar o raio de ação do cinema estrangeiro, se tornou possível ouvir as vozes de diferentes pessoas e ela, a década, se tornou a mais criativa do nosso cinema. Eu mesmo consegui  fazer cinema por esse motivo; essa política de cotas e a abertura do mercado obrigava a se ouvir  diferentes pessoas. Gente genial como o Carlão Reichenbach, culto e anárquico ao mesmo tempo; atrizes lindas como Matilde Mastrangi e de suave beleza como Aldine Muller; primitivos geniais como o José Mojica Marins ; poetas como Ozualdo Candeias e o Fernando Cony Campos; enfim nos anos 70 obrigou-se a revelar as diferenças, pois no mínimo noventa filmes por ano eram necessários para preencher a cota e serem efetivamente exibidos e vistos pela população. Deixamos nestes anos de ser estrangeiros em nossa própria terra e ao nos vermos nas telas nossa auto-estima cresceu. Fora os curtas metragens sobre temas brasileiros que obrigatoriamente passavam antes das sessões. E o que se via? Se via um Brasil com todas as suas contradições e belezas. Até um negro como eu, suburbano e sonhador, depois de trabalhar por anos como técnico em inúmeros filmes, no finalzinho da década, em 1979.se arvorou a fazer autoria e a dar sua mensagem. Desta forma surgiu Os Noivos meu primeiro longa metragem. Havia aberto a Aleph Filmes com Otávio de Miranda e Reinaldo Cozer; estes com Adnor Pitanga da Scorpius Filmes e contando com a generosidade dos atores Reinaldo Gonzaga e Neila Tavares, que confiando no projeto trabalharam por valores inferiores aos do mercado, viabilizaram assim a produção, assim como os técnicos, fotógrafos, cenógrafos e figurinistas. Filmado em 21 dias e editado em tempo recorde, o filme rendeu o necessário para que desse algum lucro, se  pagasse e ainda levasse prêmios e reconhecimentos como o de melhor roteiro pela Associação Paulista de Críticos de Arte ( APCA ). Fazer cinema criativo e comercial ao mesmo tempo hoje em dia é impossível. O império está mordendo fundo. Todo o dinheiro vai para o exterior para sustentar uma imensa máquina de guerra.Aqui só existimos em guetos. Essa é a política do império no mundo todo. Não existe lugar para uma arte autêntica como a canção, a literatura ou o cinema italiano, francês, argelino, sueco, brasileiro. Tudo precisa ser destruído rapidamente em nome de uma globalização, de um cinema pasteurizado como se tornou o cinema dos poucos e criativos cineastas que restaram. Somente o cinema do império e de quem fala aquela linguagem pasteurizada e falsa interessa. Criaram no mundo gerações suicidas, que negam e têm vergonha das suas identidades e diferenças. O que havia de revolucionário na feminilidade,  na negritude e na homossexualidade foi domesticado.Como a pobre menina da padaria à qual me refiro no post anterior e que se recusava a me ver por eu ser negro, em plena Lapa carioca em um país miscigenado e repleto de diferenças. As pessoas tem medo de suas bundas, de seus sovacos, de seus excrementos  e até de suas lágrimas. Julgam que o colonizador não fede. Ao enclausurar todas  as faixas de criatividades aos guetos, iniciam um processo de apartheid onde todo mundo sonha em sair dele em se livrar desta prisão e  ganhar um Oscar, ficando semelhante ao neocolonizador. Esse é o ideal que é perseguido por todos que conseguem sair do buraco em que foram jogados. Fazer filmes para ganhar o Oscar, vamos ver quem vai ser o primeiro a ser comprado, é o ideal do cinema brasileiro atual, é o ideal de quaisquer dos filmes feitos com dinheiro publico, em geral na faixa de milhões e é o ideal do cinema comercial no mundo todo. Fazer filmes para ganhar o Oscar. Filmes de planos rápidos e comerciais  para evitar a reflexão, ou pastiches mal estudados de filmes antigos refeitos  com glamour superficial. Ninguém se arrisca e o medo da verdade é geral. É tudo premeditado, previsível e falso. A verdade, que décadas atrás estava contida em um Fellini, um Bunuel  e um Bergman por exemplo, sumiu. A coisa é muito simples e ninguém quer ver. É Marx , pois " farinha pouca, meu pirão primeiro" , e é Freud, " tem que se descarregar o ódio em cima de alguém " . Esta é a época em que vivemos e isto ainda vai levar muitas décadas até ser modificado. No próximo post vou tentar esmiuçar melhor essa situação.
Filmando um plano de Os Noivos; na câmera o Diretor de Fotografia Edson Santos - 1979

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

9 - Ser negro, ser negro e fazer cinema. Alguns curtas a mais e o caminho para o primeiro longa-metragem.

Uma das perguntas que me fazem sempre é sobre ser negro e,  principalmente, sobre ser negro e fazer cinema. Ser negro é terrível e na maioria das vezes extremamente cansativo; tentam te derrubar de qualquer forma. Você é humilhado o tempo todo desde o momento que entra na portaria de seu prédio à ida na padaria para comprar pão pela manhã. O que se perde de vida anímica se defendendo é impressionante. O problema maior em tudo isto é que é uma coisa subjetiva, muito difícil de explicar. Sartre tem uma boa reflexão sobre o problema. Ele diz que é difícil falar sobre o negro , pois não se teve uma experiência negra. Isso é real. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Ralph Ellison escreveu a meu ver o livro mais importante sobre a questão racial que já lí : " Homem Invisível ". A tradução brasileira editada pela Marco Zero é primorosa. Sou invisível 24 horas por dia, nas ruas, no ônibus, no cotidiano em geral  e esta invisibilidade se amplifica nas ações que faço dentro da sociedade em que vivo. Talvez eu seja o negro que mais filmes dirigiu neste país. Consegui Deus sabe como, fazer 3 longas-metragens autorais em que escrevi o argumento e o roteiro, participei da produção com a minha Aleph Filmes e dirigi. Fiz nos anos 70 e 80, 15 curta metragens; filmes praticamente sobre tudo. Arquitetura, música, bairros, literatura, filmes institucionais e científicos como o Aids e Odontologia e o Aids e Medicina para o Nutes na campanha do DST Aids do Ministério da Saúde; trabalhei estagiando com Carlos Manga em alguns comerciais e sou depois de meio século trabalhando, um ilustre desconhecido no meio profissional e cultural brasileiro. Sobre a invisibilidade do negro um exemplo que sempre cito é o de chegar na padaria com a ficha estendida esperando para ser atendido, a moça atende todo mundo e de repente você pergunta " e eu aqui? "  e ela responde " desculpe não tinha te notado". É que você é invisível e as pessoas tem medo de ver a diferença. Isto quando não olham para você com um nítido ódio e desprezo por ser negro. Isso ocorre quase que diariamente em plena Lapa carioca bairro onde moro, miscigenado num Rio de Janeiro multifacetário e plural.Consegui fazer meus filmes e ganhei até alguns prêmios e parcos reconhecimentos, porque eu não sabia que era negro; sendo mulato e de uma família multiracial eu me julgava igual a todos; levava porradas, levantava e retomava o trabalho pacientemente. Pensava assim: " o erro é meu, você tem que aprender mais, ler , trabalhar". Batia na porta da casa dos outros, entrava em faculdades e cursava. Fiz licenciatura, cheguei até a pensar em dar aulas, mas de tanto ser humilhado e ridicularizado, desisti.Sobrevivi a tudo isso porque muitos dos  que me ajudaram não sabiam que eu era negro, que eu era um inimigo a ser massacrado. Duvido que homens cultos , sinceros e inteligentes como o Khouri e o Christensen soubessem que eu era negro. Para eles eu era um homem semelhante e me tratavam como tal.No momento em que vivemos, essa situação das chamadas minorias se agrava ainda mais. O Brasil é um país com uma herança colonial muito forte e as elites são extremamente servis aos interesses estrangeiros que nos exploram. Elas, essas cruéis elites feudais, são a ponte necessária para a espoliação de nosso povo, nossa cultura e nossa riqueza A questão do negro se insere aí. Pouco dinheiro circula para arte, cultura e educação. Oportunidades não mais existem e a possibilidade de negros dirigirem com a liberdade autoral que tive é nula. Esta liberdade só existe na medida em que as obras feitas fiquem confinadas em guetos que ninguém vê ( o famoso gargalo da distribuição ) que filtram o que pode ser visto ou não. Os negros de hoje só podem ter acesso à direção ou a quaisquer cargos importantes se estiverem adaptados dentro do esquema do negro servil. Isto é fácil de entender e vou explicar como: as faculdades , as emissoras de televisão, as grandes empresas, alguns partidos políticos mais modernosos, tem sempre um plantel de dois ou três negros de plantão, em cargos mal remunerados e servis, para disfarçar o ódio e o racismo que permeiam nossa cultura. Se por acaso esses negros se arvorarem a aparecer um pouco mais, se tira rapidamente o brinquedo das mãos dos meninos prodígios. Que me perdoem os irmãos de raça,e que não me interpretem mal. Acredito que o que falo é ciência, não é questão pessoal desta ou daquela pessoa; são lugares já pré- marcados e definidos na estrutura e quem ocupar esses lugares terá que agir assim. Relendo O Mal Estar na Civilização de Sigmund Freud ou Salário Preço e Lucro de Karl Marx se entende facilmente como estes lugares precedem às pessoas que os ocupam. Apesar de tudo isto consegui sair vivo depois de tanta porrada e golpes baixos que sofri. Realizei ainda com dificuldade e com dinheiro próprio os curtas Augusto do Anjos, Ataulfo Alves, Antonio Maria, Santa Teresa Reserva Urbana , Morro da Conceição e muito outros e comecei a preparação para fazer meu primeiro longa " Os Noivos ". Continuo no próximo post.
       Reinaldo Cozer, meu amigo e sócio na Aleph Filmes, Eu e Henrique, o fotógrafo. Foto tirada por Otávio de Miranda, assistente de direção. Anos 70. Filmagem do documentário " Morro da Conceição "

domingo, 16 de setembro de 2018

8 - Uma temporada com o Cinema Novo. A Difilm e Luiz Carlos Barreto. A comunidade da " Feira do Lixo " e um filme experimental. O início dos demais curtas.

Os anos de 1971 e 1972 foram muito agitados. Praticamente encerraram minha fase inicial de aprendizagem; trabalhei para algumas produtoras e fiz mais outros filmes curtos. Foi uma fase também em que passei uma temporada com o cinema novo. Pouco antes de sair do Banco Lowndes me encontrei na Avenida Rio Branco,esquina com a Rua São José, com Glauber Rocha. Ele ia para a Difilm em direção à Cinelândia e fomos conversando, depois de eu ter me apresentado e dito que queria dirigir filmes. Conversamos sobre José Mojica Marins que ele resumidamente definiu como um primitivo. O papo sobre cinema brasileiro continuou até a Cinelândia onde ele me aconselhou a procurar um emprego na Difilm a distribuidora do cinema novo e continuasse a minha formação em cinema. Sem dinheiro pra nada, pois estava desempregado após o filme do Christensen, eu morava  durante a semana ( para não  gastar com condução até Madureira ) no centro da cidade na Avenida Presidente Vargas, em frente a zona do meretrício, numa comunidade meio "hippie" chamada "Feira do Lixo", Nesta comunidade fiz grandes amigos tais como o Roberto Moura que depois se tornou num importante crítico de música popular. Com moradores da comunidade e amigos, notadamente Antonio Jaime Soares, publicitário que cenografou as cenas, fiz um curta metragem experimental chamado " 1970 " o qual gosto muito, e que tenho boas recordações; vide foto abaixo. Nesta época havia sido criada a loteria esportiva. Precisando de trabalho, fiz um curso de furar cartões da loteria, na Caixa Econômica. Fui trabalhar em uma das loterias na Rua Paulo Barreto em Botafogo.Nesta unidade quem fazia apostas semanais sempre era o Luiz Carlos Barreto, que morava  nas proximidades, na Rua 19 de Fevereiro e trabalhava na sede de sua distribuidora a Difilm  na Rua das Palmeiras 15 , um pouco mais acima. Fiquei pouco tempo na lotérica pois conversando com  o Barreto acabei por ir trabalhar na Difilm e na Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, nos anos de 1971 e 1972. Meu primeiro trabalho alí foi de telefonista e ajudante da Eliana Cobbet ( esposa do cineasta William Cobbet ) que fazia das tripas coração na conferência dos borderaux de distribuição, e com os resultados auferidos efetuava os pagamentos da empresa etc. Meu trabalho no primeiro filme alí foi no Barão Otelo, que citei no post anterior e depois em Os Sóis da Ilha de Páscoa onde fui Assistente de produção no Rio de Janeiro e em Ouro Preto, ajudando o Billy Davis,  neste mesmo filme, dirigido por Pierre Kast e que contava no elenco brasileiro com atores como Norma Bengell, Rui Guerra, Zózimo Bulbul e outros. Ainda na Difilm e posteriormente na Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas trabalhei como continuísta em A Emboscada, curta metragem de Bruno Barreto e no dia a dia da produtora e da distribuidora conheci muita gente tais como Adélia Sampaio, Walter Lima Junior, Roque Araujo, Julio Romiti, Nelson Pereira dos Santos, e outros.O início dos anos setenta foram os da consolidação destas produtoras e alí se trabalhava muito.A Lucy Barreto dirigia até a Kombi quando necessário e Luiz Carlos Barreto trabalhava muito também no se desdobrar entre a produção e a distribuição dos filmes. Foi uma fase para mim também muito importante pelos muitos conhecimentos que fiz na Rua das Palmeiras 15, sede da Difilm local de que guardo boas recordações e onde conheci Murilo Sales, Bruno Barreto, Miguel Borges, Leon Hirszman e dezenas de técnicos e diretores que por alí circulavam, alguns que me fogem à memoria no momento mas que por alí passaram e constituiram a turma do cinema novo. Após esta fase parti para a feitura de mais alguns curta metragens que narrarei no próximo post.  

Desbunde total; época do fumo manga rosa, dos comprimidos de Artane do LSD e otras cositas más. " 1970 " Filme Experimental realizado por mim com o grupo da comunidade " Feira do Lixo " onde frequentava. Telma e Antonio Jaime Soares ( que cenografou a cena )  à esq. Eloisa Abreu no centro da foto. Sentado com a pernas esticadas Fernando Abritta, recostado com os cabelos desalinhados " Woodstock " . Nú em cima da cama Fernando Montalvão

domingo, 9 de setembro de 2018

7 - Ainda sobre Khouri, Pelé, Miguel Borges, Costinha, Rui Santos, Perry Salles e muito mais

À semelhança de Christensen, Khouri era muito culto. Adorava Jazz e conhecia literatura, cinema e artes profundamente. Andávamos muito por São Paulo de carro na noite e depois em sua casa ficávamos no segundo andar da cobertura, no escritório, escutando Jazz e tomando Wkisky com Ginseng. De jazz adorava o Swing e principalmente Lester Young mas, também curtia muito Coltrane que ele definia como um jazz expressionista. Seu cinema nasce muito do jazz mas também dos filmes japoneses de Ozu e outros que ele assistia muitas vezes durante a semana Em São Paulo nesta época ( anos 60 e 70 ) existiam muitos cinemas só de filmes nipônicos, pois a colônia japonesa era imensa. A descoberta do cinema italiano dos anos 60, notadamente Antonioni e Fellini  influenciaram muito seus trabalhos mas, se os esmiuçarmos mais profundamente vemos que a cidade de São Paulo, seu gigantismo sem estilo, prédios emaranhados e pessoas solitárias, afinal como disse Nelson Rodrigues: "  A pior forma de solidão é a companhia de um Paulista " é puro Khouri. Isso é patente em seus filmes e chega ao ápice em Eros onde na abertura ele define seu cinema, a si e a cidade. Outro componente importante em sua obra foi Fitzgerald. Adorava o escritor e discutiamos muito  sobre os livros como Suave é a Noite, O Grande Gatsby  e sobretudo sobre The Crack Up  ou A Demolição uma pequena obra prima irretocável que muito admirávamos e que se enquadra perfeitamente na definição de seu cinema assim como D.H. Lawrence e os trabalhos de Paul Delvaux, os quadros metafísicos de Di Chirico além dos neo-románticos Pre-Rafaelistas.Outro autor muito discutido por nós era Strindberg.  A Dança da Morte e principalmente o livro autobiográfico Inferno. Resumindo: Khouri era um intelectual paulistano típico. Um cara extremamente sensível que refletia a cidade que amava, via o mundo através de uma ótica pessoal assimilada a partir de sua cidade. Khouri me fascinava muito, me lembro que uma vez de carona em seu carro lhe falei: Cara eu por vezes não acredito que estou ao seu lado conversando com o diretor dos filmes que assisti em toda a minha juventude; ele ternamente me falou: você tem sorte porque eu falo. Quando me esforcei e trouxe ao Brasil o Josef Von Sternberg ficava horas falando com ele e ele nada respondia era um silêncio absoluto e eu quase pirava.Nos seus últimos anos de vida estávamos afastados pois eu queria como sempre quero e um dia vou conseguir, esquecer o cinema. Liguei para ele, parecendo adivinhar que algo ia acontecer. A Nadir, sua esposa atendeu e disse que ele não falava mais ao telefone. Disse  a ela que ia mandar umas coisas que tinha: roteiros de As Amorosas, Noite Vazia, recortes de jornais etc. por sedex , o que fiz. Logo depois soube de sua morte e posteriormente a de Nadir. Mas, para mim Khouri não morreu. Me vejo sempre a seu lado no banco do carona, ele conversando comigo e fazendo observações sobre tudo com humor, interesse e alegria invejáveis, como nunca vi igual.
Após Khouri fiz ainda muitos trabalhos como técnico o que é muito enriquecedor. O convívio com as equipes gera momentos de grande emoção e conhecimento. Conviver no dia a dia das filmagens com homens como o Rui Santos, com quem trabalhei em O Desconhecido, é uma honra, ainda mais quando se tem no elenco atores como o Luiz Linhares e a paisagem de Cataguases, terra de Humberto Mauro, onde foi feito o filme. Em Pedro Mico, de Ipojuca Pontes, aproveitava e perguntava muita coisa pro Pelé. Um dia ficamos um tempão falando sobre o John Houston, por quem ele havia sido dirigido várias vezes. Existem alguns diretores pra quem a gente sente prazer em trabalhar. Pra quem a gente se deixar, paga  até pra trabalhar, pois se sente bem ao lado deles. Entre esses incluo o Miguel Borges, sempre irônico, divertido e inteligente. Nos filmes do Miguel entre os que trabalhei tais como Barão Otelo no Barato dos Bilhões, O Caso Cláudia, Consorcio de Intrigas entre outros, ocorriam sempre coisas muito interessantes. Lembro de uma cena de um filme que atuavam alguns anões, mas eles sempre eram convocados e nunca filmavam. Acredito que por problemas de luz exterior ou coisa parecida. Um dia em pleno set , o Miguel estava dirigindo e o diretor de produção gritou de longe: " Miguel qual é a previsão para os anões ? " O Miguel ainda atônito parou, pensou um pouco e respondeu enfaticamente " não vão crescer nunca ! "
Em Dora Doralina de Pèrry Salles filmamos no Rio São Francisco, na barca Benjamim Guimarães, onde também nos hospedamos. Depois fomos para Fortaleza, Quixadá, Qixeramobim, Sobral além do Rio de Janeiro e da cidade de Pirapora em Minas Gerais. Em O Homem de Seis milhões contra as Panteras onde fui assistente de Luiz Antonio Piá via o Costinha dar uma aula magistral de interpretação, criatividade e improvisação inesquecíveis.
Eu aos 36 anos. Passando as falas do roteiro com Pelé em Pedro Mico, filme de Ipojuca Pontes.
 

domingo, 26 de agosto de 2018

6 - São Paulo, Walter Hugo Khouri, Rubem Biáfora. Alguns momentos importantes dos anos 70

São Paulo sempre me fascinou mas, ao mesmo tempo, me assustava. Primeiro por ser afrodescendente acreditava que dificilmente seria francamente bemvindo e não me adaptaria na cidade. Acredito que São Paulo é a única metrópole real do Brasil e sua complexidade me assustava. Parava sempre na esquina da Ipiranga com a São João e ficava um longo tempo admirando a "Paulicéia Desvairada " de Mario de Andrade ou o " Avesso do Avesso do Avesso " de Caetano Veloso. Khouri e São Paulo são para mim a mesma coisa; sempre achei que o complexo de inferioridade do brasileiro ( que hoje chamam de complexo de vira lata ) jamais poderia aceitar um cinema como o de Khouri ou a grandiosidade e o emaranhado de uma metrópole como São Paulo.Eu detectava isso facilmente em seus filmes que, para os cariocas, soavam estranhos pois nos convidava a decifrar São Paulo. As Amorosas e Noite Vazia são bem a prova disto. Filmes enigmas que não poderão ser completamente decifrados se não forem reportados ao fato de que são filmes paulistas por excelência. A reação natural diante deste fato é  negar a existência de São Paulo e de seu cinema e rotular Khouri como alienado.Alguns críticos, notadamente os ligados ao cinema novo, o viam como retrógrado, inculto e ideologicamente fascista, o que eu pela proximidade e amizade sabia ser errado. Foi a compreensão de Khouri por este viés que reforçou nossa amizade por mais de dez anos, num conluio onde o que um falava o outro rebatia como num ping-pong. Isto obviamente acabou por se refletir no livro que comecei imediatamente a escrever e que, embora não tenha sido ainda publicado, está hoje com 300 páginas ( prefácio de Otávio de Faria e revisão de Biáfora )  que guardo e ainda penso em editar. Após nosso primeiro encontro que narro no post anterior, trocamos endereços e ele veio me visitar no Rio. Eu morava na Rua Correia Dutra no Flamengo e ele chegou acompanhado de nada mais nada menos que Rubem Biáfora  um famoso crítico que por longa data manteve uma coluna semanal no jornal " O Estado de São Paulo " por mais de trinta anos. Nessa histórica primeira visita conheci melhor a amizade e a cumplicidade entre os dois amigos. Sempre conto o mesmo episódio que me marcou a vida toda; eles diante de minha filha Ana Julieta ,nascida há oito dias, pegaram no pezinho dela e disseram: é a parte mais linda de uma criança, " olha só o tamanho dos dedos... olha as unhas " numa apreciação renascentista como em Da Vinci e outros. Amigos, cultos, interessados grandemente na vida , no cinema, na arquitetura, no dia-a-dia,  me marcaram profundamente e vendo-os discutir sobre tudo despertaram em mim o desejo de conhecer, a pulsão epistemológica. Me lembrarei eternamente dos dois caminhando pela Rua Correia Dutra e parado diante dos prédios Art Deco, discutindo questões de arquitetura e as influências da Art Deco no cinema através do neo-expressionismo americano e tudo mais. Ha algum tempo atrás dei uma entrevista ao Adilson Marcelino crítico que mantém um excelente site " Mulheres do Cinema Brasileiro " sobre Walter Hugo Khouri para a revista digital " Zingu ". Na entrevista esmiúço mais por completo minha amizade com Khouri e Biáfora, vizinhos da mesma Rua Martins Fontes em São Paulo e que nos reportávamos em observações e contribuições críticas por mais de dez anos. A entrevista  pode ser conferida no site da " Zingu " em:  https://revistazingu.net/2011/09/27/entrevista-afranio-vital/  vale a pena conferir.
Nos dez anos seguintes ia seguidamente a São Paulo e ele vinha sempre ao Rio, na maioria das vezes de carro. Passava lá em casa e saíamos discutindo seus filmes e o livro que estava sendo escrito.
Estudava nesta época Filosofia na UFRJ , na parte da tarde e pela noite, Comunicação Social nas Faculdades Integradas Estácio de Sá. Motivado pela análise que fazia e por ser aluno assistente de MD Magno psicanalista e estudioso da obra de Lacan, de quem ele havia sido analisando. Magno introduziu Lacan no país, inaugurando o Colégio Freudiano. Muito no livro que escrevi e algumas obras do Khouri refletiam nossos bate papos psicanalíticos e isso fica bem patente em trechos do livro. Numa dessas idas e vindas ele me chamou para ser assistente em " O Desejo " . Infelizmente não pude participar ativamente das filmagens pois adoeci com pneumonia em pleno inverno paulista. Mas como estava envolvido no projeto discutindo e conversando durante um ano, e à sua disposição hospedado em São Paulo, ele decidiu colocar meu nome como segundo assistente de direção conforme consta do filme e das fichas técnicas. Segundo seu ponto de vista a assistência de direção não se esgotava apenas no trabalho cotidiano e braçal mas também no acompanhamento intelectual que eu já fazia durante toda a preparação.Como assistente não  seria eu que iria discordar do que ele achava certo para seu filme. Continuo no próximo post a falar um pouco mais de Khouri antes de discorrer sobre meus primeiros filmes de longa-metragem.
Foto feita por mim da filmagem de uma cena. Khouri revisa o texto com Lilian Lemmertz em sua obra prima " O Desejo " - 1975 - Inverno - São Paulo