terça-feira, 6 de novembro de 2018

11 - Ainda Os Noivos e considerações filosóficas e psicanalíticas sobre os anos 60 e 70

Os Noivos, meu primeiro longa foi um amálgama de toda a década de 70 . Um filme intimista, tinha o Reinaldo Gonzaga, a maravilhosa Neila Tavares e Maria Lucia Dahl em uma participação especial, além de Sonia Oiticica e Norma Sueli. É o processo de ajuste de contas de um casal, um filme que realizei no início de meu longo processo psicanalítico e reflete a questão da impossibilidade do amor no sentido lacaniano da arte de dar o que não se tem a alguém que não é. Eu estava muito fascinado com O Último Tango em Paris e lia muito os estruturalistas, Deleuze, Lacan, Foucault, entre muitos.... aí resolvi escrever o roteiro. O filme tinha a Neila Tavares, uma morena linda e ótima atriz que eu sempre havia sonhado dirigir . Tinha o Reinaldo Gonzaga, um ator incrível que expressava bem momentos de indecisão, etc. Ficou pronto em 79 e o Khouri me presenteou fazendo uma bela introdução ao meu primeiro trabalho, no release do filme. " Acho que Afranio Vital, antes mesmo de realizar seu primeiro filme, era já muito mais que uma simples esperança para o cinema brasileiro, pelo seu empenho, pelo seu profundo conhecimento da arte a que se dedicou como também pelo seu excelente trabalho de assistente e curta-metragista e também como crítico de superior cultura e informação a nível dificilmente encontrado no país. A realização deste primeiro longa-metragem confirmará certamente todas as qualidades que os que convivem ou trabalham com ele já conhecem de antemão. Esperamos que seja o começo de uma carreira pessoal e profundamente empenhada que é certamente seu propósito. De nossa parte, temos certeza que assim será" WALTER HUGO KHOURI. Distribui o filme no Brasil com a Embrafilme e em grande parte da América do Sul com distribuidores argentinos. Com ele ganhei o prêmio de melhor roteiro pela Associação Paulista de Críticos de Arte
Em Oito e Meio de Fellini, um diretor de cinema pergunta ao cardeal em uma audiência: Sr. Cardeal, por que eu não sou feliz? e o Cardeal responde: Mas quem te disse que o homem veio ao mundo para ser feliz. Acredito particularmente que o que queremos nós nem sabemos se existe nem sabemos o que é. O " falus ", o " bem supremo "  ou  "o objeto "  ou  " a arma absoluta " não existe, ele é criado pela entrada do homem na linguagem que ao nomear as coisas fazem crer que elas existem autonomamente e são alcançáveis aos nossos comuns sentidos. Os anos 60 e 70 foram anos extremamente utópicos tanto no terreno do social quanto do sexual nos fazendo crer que existiria uma "felicidade" que seria alcançada ainda dentro daqueles 20 anos das duas décadas. Nunca se trepou tanto e se liberalizou tanto as sexualidades de formas tão diversificadas, do grotesco ao arabesco: saunas e cinemas com programação eróticas cheios, a publicidade vendendo cigarros, bebidas, carros etc os objetivos por trás de tudo isto era o de alcançar o " bem supremo " de imediato. No cinema social e político idem. O sertão viraria mar e o mar viraria sertão. Filmes contra a corrente como Noite Vazia e Os Noivos que denunciavam o vazio que se encontrava no fim dessa desenfreada busca através da sexualidade, além de serem irônicos eram mal vistos pois cortavam o barato dos sonhadores.Qualquer tentativa de se criticar essa visão idealista e suicida ( perdi muitos amigos e vi muitos jovens colegas de faculdade sumirem por susto, bala ou vício ) se fosse na política seria considerada fascista e de direita como no meu caso e de Khouri, críticos ferrenhos desse idealismo infantil; quando não fosse ridicularizado como em muitas críticas ao meu filme de estreia. Somente depois quando em " Terra em Transe " Glauber Rocha coloca o dedo na ferida da ingenuidade política da esquerda dos anos 60 e seus sonhos quixotescos de revolução é que parte da crítica se acalmou e começaram a ver o pensamento estrutural e a filosofia estruturalista como uma importante releitura de Freud ( Lacan - Escritos ) e de Marx (Althusser - Ler o Capital ) eu Khouri, Biáfora e alguns poucos críticos esclarecidos da época dávamos grandes gargalhadas diante de tanto sociologismo e psicologismo imbecíl e pretensioso.
Por estes e outros motivos não se podia continuar na pesquisa a partir do intimismo de Os Noivos e de Noite Vazia que preso ainda a certo convencionalismo não conseguia transmitir com maior veracidade a questão estrutural que precede aos sujeitos. Isto veio a ser conseguido por Khouri a partir de O Corpo Ardente e culminou com O Desejo e no meu caso na ruptura que foi para mim passar do intimismo do primeiro filme ao marginalismo de Longa Noite do Prazer, meu segundo filme. Ainda essas digressões serão temas do próximo post.
       
                                  
Esq./Dir. Tião Macalé, Eu e Haroldo de Oliveira. Filmagem de uma cena de " Longa Noite do Prazer "          

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