Em Oito e Meio de Fellini, um diretor de cinema pergunta ao cardeal em uma audiência: Sr. Cardeal, por que eu não sou feliz? e o Cardeal responde: Mas quem te disse que o homem veio ao mundo para ser feliz. Acredito particularmente que o que queremos nós nem sabemos se existe nem sabemos o que é. O " falus ", o " bem supremo " ou "o objeto " ou " a arma absoluta " não existe, ele é criado pela entrada do homem na linguagem que ao nomear as coisas fazem crer que elas existem autonomamente e são alcançáveis aos nossos comuns sentidos. Os anos 60 e 70 foram anos extremamente utópicos tanto no terreno do social quanto do sexual nos fazendo crer que existiria uma "felicidade" que seria alcançada ainda dentro daqueles 20 anos das duas décadas. Nunca se trepou tanto e se liberalizou tanto as sexualidades de formas tão diversificadas, do grotesco ao arabesco: saunas e cinemas com programação eróticas cheios, a publicidade vendendo cigarros, bebidas, carros etc os objetivos por trás de tudo isto era o de alcançar o " bem supremo " de imediato. No cinema social e político idem. O sertão viraria mar e o mar viraria sertão. Filmes contra a corrente como Noite Vazia e Os Noivos que denunciavam o vazio que se encontrava no fim dessa desenfreada busca através da sexualidade, além de serem irônicos eram mal vistos pois cortavam o barato dos sonhadores.Qualquer tentativa de se criticar essa visão idealista e suicida ( perdi muitos amigos e vi muitos jovens colegas de faculdade sumirem por susto, bala ou vício ) se fosse na política seria considerada fascista e de direita como no meu caso e de Khouri, críticos ferrenhos desse idealismo infantil; quando não fosse ridicularizado como em muitas críticas ao meu filme de estreia. Somente depois quando em " Terra em Transe " Glauber Rocha coloca o dedo na ferida da ingenuidade política da esquerda dos anos 60 e seus sonhos quixotescos de revolução é que parte da crítica se acalmou e começaram a ver o pensamento estrutural e a filosofia estruturalista como uma importante releitura de Freud ( Lacan - Escritos ) e de Marx (Althusser - Ler o Capital ) eu Khouri, Biáfora e alguns poucos críticos esclarecidos da época dávamos grandes gargalhadas diante de tanto sociologismo e psicologismo imbecíl e pretensioso.
Por estes e outros motivos não se podia continuar na pesquisa a partir do intimismo de Os Noivos e de Noite Vazia que preso ainda a certo convencionalismo não conseguia transmitir com maior veracidade a questão estrutural que precede aos sujeitos. Isto veio a ser conseguido por Khouri a partir de O Corpo Ardente e culminou com O Desejo e no meu caso na ruptura que foi para mim passar do intimismo do primeiro filme ao marginalismo de Longa Noite do Prazer, meu segundo filme. Ainda essas digressões serão temas do próximo post.

Esq./Dir. Tião Macalé, Eu e Haroldo de Oliveira. Filmagem de uma cena de " Longa Noite do Prazer "