Este é o meu septuagésimo ano de vida. Nasci em 28 de Dezembro de 1948. Resolvi criar este blog para deixar registradas minhas memórias, principalmente em cinema, mas também sobre minha vida em geral, sobre filosofia, artes, psicanálise e meus trabalhos artísticos em cinema.
Escrevi, dirigi e produzi com ajuda de amigos 3 longa metragens e 15 curtas nos anos 70/80, além de ter feito minha formação em Filosofia ( UFRJ ) , Licenciatura em Estudos Sociais ( Faculdade de Educação - UFRJ ) e Comunicação Social ( Universidade Estácio de Sá ). Militei em cinema por um longo tempo, aproximadamente 50 anos; fui assistente de direção de diretores consagrados tais como Walter Hugo Khouri, Carlos Hugo Christensen, Miguel Borges e outros. Trabalhei com os principais técnicos, atores e diretores do cinema brasileiro. Por esse motivo acredito ser importante deixar registradas minhas memórias para os possíveis e interessados leitores.
1948 foi o ano em que nasci em Bom Jesus do Itabapoana, norte do estado do Rio de Janeiro, de família rural muito pobre. Pai branco, mãe negra que teve nove filhos, sendo dois negros, eu e meu irmão Laerte que faleceu de alcoolismo aos 37 anos.Costumo sempre frisar: nós comemos o pão que o diabo amassou e me lembro de muita coisa sofrida, muitos traumas essenciais até os meus dez anos. Brigas de família, o trágico suicídio de minha irmã Jacy aos 25 anos, que tomou formicida com guaraná em 1958 e foi enterrada vestida de noiva. Uma mistura de Bunuel e melodramas mexicanos. Depois, a separação dos meus pais e a vinda para o Rio, onde fomos morar na favela do esqueleto, em frente ao Maracanã. E também a morte de meu pai, que havia vindo ao Rio para tentar reatar com minha mãe. Minha vida até os dez anos foi neste aspecto algo parecido com
Rocco e seus Irmãos e a primeira fase da obra de Nelson Rodrigues, até " Álbum de Família " , misturado com um pouco de tango argentino, o que custou quase trinta anos de análise para conseguir sobreviver sem me matar ...
A favela do esqueleto, local onde hoje é a UERJ, no Maracanã, era dominada pelo bandido " Cara de Cavalo ", que assassinou o detetive Le Cocq e se tornou a primeira vítima da " Scuderie Le Cocq ", organização policial clandestina criada para vingar a morte do detetive.
Ficamos um tempo na favela e depois fomos morar no Buraco Quente, uma vila de quartos populares em Madureira, na Rua Capitão Macieira. Na época era uma Madureira rica, do Natal da Portela, do Tenório Cavalcanti, que morava em Caxias, mas pedia votos em Madureira.Também dos carros Chevrolet Impala, o Natal tinha uma frota, dos coretos de carnaval, do Teatro Zaquia Jorge e de 5 cinemas fabulosos, com sessões duplas diárias. Numa sessão no cine Alfa se assistia a
Angú de Caroço com Jararaca e Ratinho, e na segunda sessão a
Deus e o Diabo na Terra do Sol , de Glauber Rocha. Já no cine Coliseu, em uma sessão era
Elas Atendem pelo Telefone de Duilio Mastroianni e na outra
Noite Vazia, do Khouri. Ainda havia alguns cinemas: Cine Madureira e Cine Beija-Flor que tinham seriados como
A Sombra Misteriosa ,
Super Homem ou
Nioka, a Rainha das Selvas. Lembro que uma vez fiquei uma tarde inteira maravilhado vendo o Nelson Pereira filmar uma cena de
O Boca de Ouro, nas escadarias da estação de Madureira. Hoje vejo como em
A era do Rádio Woody Allen descreve muito bem a fuga para o espetáculo do cinema nos períodos de depressão. A depressão no subúrbio era constante para mim, pela adolescência, pelo calor, pela miséria cotidiana e falta de perspectivas da baixa classe média.
Passei bom tempo de minha vida nesses cinemas e eles fizeram parte da minha formação intelectual. Como poucos tinham ar condicionado, ouço até hoje nos meus ouvidos o ruído dos enormes ventiladores nas paredes laterais dos cinemas, em meio a escuridão, embalando durante toda a adolescência, minhas viagens no imaginário.
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| Eu, aos dois anos com minha mãe, Julieta Dutra, sentados ao lado de uma plantação de batata doce |