São Paulo sempre me fascinou mas, ao mesmo tempo, me assustava. Primeiro por ser afrodescendente acreditava que dificilmente seria francamente bemvindo e não me adaptaria na cidade. Acredito que São Paulo é a única metrópole real do Brasil e sua complexidade me assustava. Parava sempre na esquina da Ipiranga com a São João e ficava um longo tempo admirando a "Paulicéia Desvairada " de Mario de Andrade ou o " Avesso do Avesso do Avesso " de Caetano Veloso. Khouri e São Paulo são para mim a mesma coisa; sempre achei que o complexo de inferioridade do brasileiro ( que hoje chamam de complexo de vira lata ) jamais poderia aceitar um cinema como o de Khouri ou a grandiosidade e o emaranhado de uma metrópole como São Paulo.Eu detectava isso facilmente em seus filmes que, para os cariocas, soavam estranhos pois nos convidava a decifrar São Paulo.
As Amorosas e
Noite Vazia são bem a prova disto. Filmes enigmas que não poderão ser completamente decifrados se não forem reportados ao fato de que são filmes paulistas por excelência. A reação natural diante deste fato é negar a existência de São Paulo e de seu cinema e rotular Khouri como alienado.Alguns críticos, notadamente os ligados ao cinema novo, o viam como retrógrado, inculto e ideologicamente fascista, o que eu pela proximidade e amizade sabia ser errado. Foi a compreensão de Khouri por este viés que reforçou nossa amizade por mais de dez anos, num conluio onde o que um falava o outro rebatia como num ping-pong. Isto obviamente acabou por se refletir no livro que comecei imediatamente a escrever e que, embora não tenha sido ainda publicado, está hoje com 300 páginas ( prefácio de Otávio de Faria e revisão de Biáfora ) que guardo e ainda penso em editar. Após nosso primeiro encontro que narro no post anterior, trocamos endereços e ele veio me visitar no Rio. Eu morava na Rua Correia Dutra no Flamengo e ele chegou acompanhado de nada mais nada menos que Rubem Biáfora um famoso crítico que por longa data manteve uma coluna semanal no jornal " O Estado de São Paulo " por mais de trinta anos. Nessa histórica primeira visita conheci melhor a amizade e a cumplicidade entre os dois amigos. Sempre conto o mesmo episódio que me marcou a vida toda; eles diante de minha filha Ana Julieta ,nascida há oito dias, pegaram no pezinho dela e disseram: é a parte mais linda de uma criança, " olha só o tamanho dos dedos... olha as unhas " numa apreciação renascentista como em Da Vinci e outros. Amigos, cultos, interessados grandemente na vida , no cinema, na arquitetura, no dia-a-dia, me marcaram profundamente e vendo-os discutir sobre tudo despertaram em mim o desejo de conhecer, a pulsão epistemológica. Me lembrarei eternamente dos dois caminhando pela Rua Correia Dutra e parado diante dos prédios Art Deco, discutindo questões de arquitetura e as influências da Art Deco no cinema através do neo-expressionismo americano e tudo mais. Ha algum tempo atrás dei uma entrevista ao Adilson Marcelino crítico que mantém um excelente site " Mulheres do Cinema Brasileiro " sobre Walter Hugo Khouri para a revista digital " Zingu ". Na entrevista esmiúço mais por completo minha amizade com Khouri e Biáfora, vizinhos da mesma Rua Martins Fontes em São Paulo e que nos reportávamos em observações e contribuições críticas por mais de dez anos. A entrevista pode ser conferida no site da " Zingu " em:
https://revistazingu.net/2011/09/27/entrevista-afranio-vital/ vale a pena conferir.
Nos dez anos seguintes ia seguidamente a São Paulo e ele vinha sempre ao Rio, na maioria das vezes de carro. Passava lá em casa e saíamos discutindo seus filmes e o livro que estava sendo escrito.
Estudava nesta época Filosofia na UFRJ , na parte da tarde e pela noite, Comunicação Social nas Faculdades Integradas Estácio de Sá. Motivado pela análise que fazia e por ser aluno assistente de MD Magno psicanalista e estudioso da obra de Lacan, de quem ele havia sido analisando. Magno introduziu Lacan no país, inaugurando o Colégio Freudiano. Muito no livro que escrevi e algumas obras do Khouri refletiam nossos bate papos psicanalíticos e isso fica bem patente em trechos do livro. Numa dessas idas e vindas ele me chamou para ser assistente em " O Desejo " . Infelizmente não pude participar ativamente das filmagens pois adoeci com pneumonia em pleno inverno paulista. Mas como estava envolvido no projeto discutindo e conversando durante um ano, e à sua disposição hospedado em São Paulo, ele decidiu colocar meu nome como segundo assistente de direção conforme consta do filme e das fichas técnicas. Segundo seu ponto de vista a assistência de direção não se esgotava apenas no trabalho cotidiano e braçal mas também no acompanhamento intelectual que eu já fazia durante toda a preparação.Como assistente não seria eu que iria discordar do que ele achava certo para seu filme. Continuo no próximo post a falar um pouco mais de Khouri antes de discorrer sobre meus primeiros filmes de longa-metragem.
 |
| Foto feita por mim da filmagem de uma cena. Khouri revisa o texto com Lilian Lemmertz em sua obra prima " O Desejo " - 1975 - Inverno - São Paulo |
Nenhum comentário:
Postar um comentário