domingo, 26 de agosto de 2018

6 - São Paulo, Walter Hugo Khouri, Rubem Biáfora. Alguns momentos importantes dos anos 70

São Paulo sempre me fascinou mas, ao mesmo tempo, me assustava. Primeiro por ser afrodescendente acreditava que dificilmente seria francamente bemvindo e não me adaptaria na cidade. Acredito que São Paulo é a única metrópole real do Brasil e sua complexidade me assustava. Parava sempre na esquina da Ipiranga com a São João e ficava um longo tempo admirando a "Paulicéia Desvairada " de Mario de Andrade ou o " Avesso do Avesso do Avesso " de Caetano Veloso. Khouri e São Paulo são para mim a mesma coisa; sempre achei que o complexo de inferioridade do brasileiro ( que hoje chamam de complexo de vira lata ) jamais poderia aceitar um cinema como o de Khouri ou a grandiosidade e o emaranhado de uma metrópole como São Paulo.Eu detectava isso facilmente em seus filmes que, para os cariocas, soavam estranhos pois nos convidava a decifrar São Paulo. As Amorosas e Noite Vazia são bem a prova disto. Filmes enigmas que não poderão ser completamente decifrados se não forem reportados ao fato de que são filmes paulistas por excelência. A reação natural diante deste fato é  negar a existência de São Paulo e de seu cinema e rotular Khouri como alienado.Alguns críticos, notadamente os ligados ao cinema novo, o viam como retrógrado, inculto e ideologicamente fascista, o que eu pela proximidade e amizade sabia ser errado. Foi a compreensão de Khouri por este viés que reforçou nossa amizade por mais de dez anos, num conluio onde o que um falava o outro rebatia como num ping-pong. Isto obviamente acabou por se refletir no livro que comecei imediatamente a escrever e que, embora não tenha sido ainda publicado, está hoje com 300 páginas ( prefácio de Otávio de Faria e revisão de Biáfora )  que guardo e ainda penso em editar. Após nosso primeiro encontro que narro no post anterior, trocamos endereços e ele veio me visitar no Rio. Eu morava na Rua Correia Dutra no Flamengo e ele chegou acompanhado de nada mais nada menos que Rubem Biáfora  um famoso crítico que por longa data manteve uma coluna semanal no jornal " O Estado de São Paulo " por mais de trinta anos. Nessa histórica primeira visita conheci melhor a amizade e a cumplicidade entre os dois amigos. Sempre conto o mesmo episódio que me marcou a vida toda; eles diante de minha filha Ana Julieta ,nascida há oito dias, pegaram no pezinho dela e disseram: é a parte mais linda de uma criança, " olha só o tamanho dos dedos... olha as unhas " numa apreciação renascentista como em Da Vinci e outros. Amigos, cultos, interessados grandemente na vida , no cinema, na arquitetura, no dia-a-dia,  me marcaram profundamente e vendo-os discutir sobre tudo despertaram em mim o desejo de conhecer, a pulsão epistemológica. Me lembrarei eternamente dos dois caminhando pela Rua Correia Dutra e parado diante dos prédios Art Deco, discutindo questões de arquitetura e as influências da Art Deco no cinema através do neo-expressionismo americano e tudo mais. Ha algum tempo atrás dei uma entrevista ao Adilson Marcelino crítico que mantém um excelente site " Mulheres do Cinema Brasileiro " sobre Walter Hugo Khouri para a revista digital " Zingu ". Na entrevista esmiúço mais por completo minha amizade com Khouri e Biáfora, vizinhos da mesma Rua Martins Fontes em São Paulo e que nos reportávamos em observações e contribuições críticas por mais de dez anos. A entrevista  pode ser conferida no site da " Zingu " em:  https://revistazingu.net/2011/09/27/entrevista-afranio-vital/  vale a pena conferir.
Nos dez anos seguintes ia seguidamente a São Paulo e ele vinha sempre ao Rio, na maioria das vezes de carro. Passava lá em casa e saíamos discutindo seus filmes e o livro que estava sendo escrito.
Estudava nesta época Filosofia na UFRJ , na parte da tarde e pela noite, Comunicação Social nas Faculdades Integradas Estácio de Sá. Motivado pela análise que fazia e por ser aluno assistente de MD Magno psicanalista e estudioso da obra de Lacan, de quem ele havia sido analisando. Magno introduziu Lacan no país, inaugurando o Colégio Freudiano. Muito no livro que escrevi e algumas obras do Khouri refletiam nossos bate papos psicanalíticos e isso fica bem patente em trechos do livro. Numa dessas idas e vindas ele me chamou para ser assistente em " O Desejo " . Infelizmente não pude participar ativamente das filmagens pois adoeci com pneumonia em pleno inverno paulista. Mas como estava envolvido no projeto discutindo e conversando durante um ano, e à sua disposição hospedado em São Paulo, ele decidiu colocar meu nome como segundo assistente de direção conforme consta do filme e das fichas técnicas. Segundo seu ponto de vista a assistência de direção não se esgotava apenas no trabalho cotidiano e braçal mas também no acompanhamento intelectual que eu já fazia durante toda a preparação.Como assistente não  seria eu que iria discordar do que ele achava certo para seu filme. Continuo no próximo post a falar um pouco mais de Khouri antes de discorrer sobre meus primeiros filmes de longa-metragem.
Foto feita por mim da filmagem de uma cena. Khouri revisa o texto com Lilian Lemmertz em sua obra prima " O Desejo " - 1975 - Inverno - São Paulo
 

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