segunda-feira, 20 de agosto de 2018

4 - Encontro com Carlos Hugo Christensen e " Anjos e Demônios " minha estréia profissional em cinema num longínquo 1969

Toquei a campainha do apto às 20 hs em ponto e me lembro até hoje do Christensen abrindo a porta, confuso e admirado por estar diante de um negro com 20 anos de idade que conhecia grande parte de sua obra,  cena por cena assistida na solidão das tardes dos cinemas em Madureira. Conversamos a noite toda, até de madrugada quando fui embora. Falamos sobre Matemática Zero amor 10, Meus Amores no Rio, Este Rio que eu Amo, Como Matar um Playboy, Viagem aos Seios de Duília, O Menino e o Vento  e muito sobre a poesia de " Leopardi " , Rimbaud , Luchino Visconti e Jorge Luis Borges, cuja obra eu conhecia e tinha sido comprada mensalmente livro por livro importado, na livraria El Ateneo na Rua Senador Dantas, com o dinheiro suado de Office Boy. Eu não parava de falar, mostrando a ele tudo que sabia sobre arte e cinema num discurso histérico sem fim e ele muito gentil e calmo, escutava com paciência o jovem aspirante a realizador de filmes. Quase chegando na madrugada, depois de uma noitada impressionante regada a whisky,  ele me ofereceu o cargo de continuista, um segundo assistente de direção e o salário era fabuloso.Conversando com ele sobre o porquê de um salário semanal tão alto ele me explicou que assim era pois nem sempre havia trabalho em cinema e se ficava por vezes alguns meses sem trabalhar. No filme eu ajudava o Francisco Marques, amigo e assistente pessoal do Christensen na maioria de seus filmes. Me entregou um roteiro do filme e me explicou o meu trabalho dizendo que procurasse o Chiquinho na tarde daquele dia que se iniciava e ele me explicaria melhor.O filme que seria feito se chamava Anjos e Demônios e era uma co-produção com a Paramount Pictures amparada pela Lei de Remessas de Lucro. Eu estava com os 20 anos que havia feito em Dezembro de 1968 e estava ingressando profissionalmente em cinema.
No dia seguinte na parte da tarde iniciei com o Chiquinho a esquadrinhar o roteiro do filme, levantando os objetos de cada cena, roupas,  locais etc. O Francisco Marques era uma pessoa muito gentil e teve muita paciência comigo, jovem, aprendiz e ansioso por querer saber tudo. Christensen eu definiria como um gentleman, polido, esmerado, de fala baixa. Perfumado, elegante e bonito. As calças vincadas e as camisas bem passadas assim como sapatos finos e gestos calmos e estudados; uma figura admirável e nobre. Grande parte do filme seria rodado em Cabo Frio. Viajamos todos para lá,  a equipe imensa com mais de 20 pessoas entre técnicos e atores e nos hospedamos no Lido Hotel na praia do Forte, hotel que foi demolido e não existe mais. Os atores eram Geraldo Del Rey, Fregolente, Eva Christian, Luiz Fernando Ianneli , Rubens de Falco, Clementino Kelé, Ivan Setta, Fernando Bicudo. A equipe técnica tinha Antonio Gonçalves na      fotografia, Nena de Oliveira na maquiagem e Marco Braga na Cenografia. Era um filme complexo e usava uma parafernália imensa que incluia até iluminação artificial diurna para tirar as sombras dos olhos dos atores no sol forte de Cabo Frio. As filmagens duraram 8 semanas. Trabalhei 4 semanas antes na preparação  e ainda quatro semanas ou mais na edição e na dublagem. O primeiro dia de filmagem foi no Corte do Cantagalo em Copacabana na casa do personagem homossexual que dava grana para o Paulo, personagem do Ianelli. O segundo dia foi na casa do Dr. Marcos, personagem do Fregolente, que todos julgavam morto e que ressurgia na frente de todos e esbofeteava a Eva Christian. Ela tinha que cair exatamente num ponto marcado pela câmera. Para que se tenha a ideia do perfeccionismo do Christensen o plano foi filmado 15 vezes. Os copiões do filme eram em preto e branco ( o colorido era muito caro ) e na medida que as filmagens avançavam vinham cenas piloto do filme ( pequenos trechos ) que o Antonio Gonçalves e Christensen conferiam. O argumento do filme era do Barroso, Jotta Barroso que já havia trabalhado com Christensen em " O Menino e o Vento " que foi filmado em sua cidade, Visconde de Rio Branco em Minas Gerais. Barroso homem culto e vivido fez logo amizade comigo e conversávamos muito. As cenas eram pacientemente ensaiadas uma a uma, eu marcava o chão com giz para a parada dos atores nos pontos de iluminação e foco. Refletores de 1000, 500 e até alguns pequenos de funil que iluminavam quadros, cinzeiros etc... proporcionando um quantidade imensa de luz. As cenas na verdade eram pintadas uma a uma como um quadro em focos perfeitos.Para um homem vivido, com prêmio em Cannes e passagem pelo cinema Argentino, Venezuelano etc  eu me admirava da paciência e humildade dele. Chiquinho organizava os atores e coordenava a equipe, marcava os planos sob a orientação do diretor, ensaiava a luz com o Antonio Gonçalves e depois de tudo pronto chamávamos o Christensen que adentrava ao set para dirigir. Foi uma aula magistral de cinema que relembro até hoje meio século depois.Recentemente numa retrospectiva do diretor dei um depoimento onde elogio sua obra, vejam em:
http://www.portalbrasileirodecinema.com.br/christensen/depoimentos-afranio-vital.php?indice=depoimentos
No próximo post falarei um pouco mais sobre Christensen e de como fui trabalhar depois com Walter Hugo Khouri outro cineasta que muito admirava e a quem também queria conhecer e trabalhar ...
   
24/05/1969 Sequência 279 Cena 1 - Tribunal do Juri, Christensen passa a meu lado e Antonio Gonçalves,  fotômetro em punho , mede a luz 

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