domingo, 20 de janeiro de 2019

12 - O Jazz. De como me tornei um aficionado. A importância do Jazz como reflexo da angústia existencial e da negritude.

O jazz surgiu em minha vida em Madureira, na passagem da adolescência para adulto jovem. A partir dos quinze anos comecei a ler muito.As idas até o centro da cidade para trabalhar nos anos 60 e 70 levavam horas e ler no ônibus ou no trem era uma forma de aumentar o conhecimento e passar o tempo. Alugava muito livro na Biblioteca Castro Alves na Av. Treze de Maio na Cinelândia. Ali  conheci praticamente todo o essencial da obra freudiana e marxista, alem dos grandes nomes da literatura mundial. O Ser e o Nada  e A Náusea eram dois livros de Jean Paul Sartre que me remetiam ao Jazz. Em A Náusea o sentimento de desgarramento do personagem com o mundo se dava através de uma musica cantada pela Billie Holiday que o personagem escutava. A leitura deste livro marcou profundamente a mim, ao Edson Dantas e ao Edinho Francisco de Carvalho, amigos também jovens da época e que eu encontrava no " Buraco Quente " na Rua Capitão Macieira em Madureira nos anos 60. Neste grupo de adolescentes havia ainda o "Moringa " e seu irmão o Beto e outros cujos nomes me fogem à memória. Nós ficávamos acordados até tarde na rua pois o calor insuportável obrigava a isto.Ouvíamos músicas em cima de uma caixa d`água, em um rádio de pilha marca " Spica ". Recentemente encontrei uma foto deste rádio e reproduzo abaixo:

Em um radinho deste escutávamos os programas semanais do lendário Paulo Santos; " Tempo de Jazz " e "  Encontro com o Jazz" ambos na Radio MEC. Era um lenitivo para o sofrimento cotidiano. Não usávamos drogas, só bebíamos umas cachaças e uns " cuba libres " acompanhados de maços e maços de cigarros sem filtro e cervejas, quando sobrava uma grana. Os programas de Paulo Santos eram extremamente didáticos e nos viciamos assim no jazz, como alternativa para a falta de perspectiva naquele solitário e quente subúrbio carioca. Ora, todo vício tem seu preço e acabamos, eu e o Edinho Carvalho, amigo que perdi a cerca de dois anos passados, comprando uma vitrola velha e os primeiros discos de Jazz : Wes Montgomery, Sinatra e Basie, Coltrane  e outros. Alguns discos ainda conservo até hoje tais como os do Basie. foto abaixo:  
  O Jazz em vídeo veio mais tarde.Os primeiros adquiridos em New York, em frente ao Village Vanguard, de um colecionador. Mas o primeiro memso foi um VHS que veio por meio de minha filha Ana Julieta , quando estudava balé na  " Steps " da Broadway . Foi o " Ladies sings the Blues " em VHS com Lena Horne, Billie Holiday  , Sarah Vaughan, Ethel Waters e Bessie Smith. Muitas das indicações de discos vieram também por meio do Walter Hugo Khouri, outro colecionador e aficcionado. Os demais videos foram no clube de jazz que criei junto com meu amigo Eduardo Franklin Villela Souto , também colecionador. Faziamos mostras em vários locais. Centro Cultural do Banco do Brasil, Castelinho do Flamengo, Museu do Telefone e outros. Acabei por ter centenas de video-lasers  e VHS  que cobrem praticamente tudo de jazz em imagens existentes.
Não tenho um músico preferido, mudo sempre de estilo e escuto de tudo. Sempre escuto de acordo com o estado de humor em que me encontro. Tem épocas que escuto muito Coltrane, Monk. Bill Evans e cantores como Johnny Hartman e Nina Simone. Mas de repente volto para o Swing e curto Billie, Basie, Ellington, Cab Calloway, Billy Eckstine e Sarah Vaughan.. Jazz pra mim é como definia Sartre, uma espécie de bálsamo, um lenitivo para o sofrimento diário e uma forma também de comemorar a alegria cotidiana quando ela aparece. Meu estado de humor é que rege minhas escolhas, entre centenas de discos e dvds de Jazz.
O Jazz tem um lado cruel de denuncia da questão social e da negritude. Fats Waller, para mim , é o exemplo máximo de uma analogia entre o sofrimento do negro e o Jazz. Nos EUA foi considerado um entertainer, um artista menor, um cômico desprovido de sentido. Morreu jovem, solitário, gordo, cansado e abandonado no vagão de um trem. Foi, na verdade, assassinado pelo mundo do entretenimento, sem que fosse reconhecida sua genialidade, o que só ocorreu posteriormente. Isto também sucedeu com a Billie Holiday, com Charlie Parker, Mingus, Monk e outros. A música negra americana e o Jazz , talvez sejam o maior legado que a América deixará ao mundo. Mas eles mesmos teimam em não ver sua importância, pois ela nasce desse sofrimento e também o denuncia. Scott Fitzgerald, outro aficcionado pelo jazz, dizia que não há segundo ato na vida dos americanos. Ele próprio foi uma prova disso. Derrubado pelo alcoolismo e outras tragédias, nunca mais se levantou. Quando morreu em 1940, muitos se espantaram de que ainda estivesse vivo. A América é cruel com seus gênios, ainda mais se negros. A Ku Klux Kan queimava cruzes na porta da casa de Nat King Cole e ele nunca conseguiu um anunciante sequer para seu maravilhoso " Nat King Cole Show " . A Madison Avenue  e seus  publicitários não gostam de negros. Nat foi na verdade  também assassinado aos quarenta e poucos anos. Sua presença linda e criativa na Tv assustava e soava como um denuncia das causas desse sofrimento, que o jazz teima em colocar em primeiro plano . Segue abaixo duas fotos minhas ainda quando adulto jovem entre 30 e 40 anos no Teatro Apollo  em  New York na Rua 125 no Harlem, aguardando a hora de entrar neste mais importante templo do jazz no mundo, onde pontificaram  Duke Ellington, Ella Fitzgerald e centenas de outros grandes nomes.

      É isso aí. No próximo post volto a falar sobre cinema e principalmente sobre Longa Noite do Prazer um filme muito influenciado pelo meu amor e fixação ao jazz


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