Uma das perguntas que me fazem sempre é sobre ser negro e, principalmente, sobre ser negro e fazer cinema. Ser negro é terrível e na maioria das vezes extremamente cansativo; tentam te derrubar de qualquer forma. Você é humilhado o tempo todo desde o momento que entra na portaria de seu prédio à ida na padaria para comprar pão pela manhã. O que se perde de vida anímica se defendendo é impressionante. O problema maior em tudo isto é que é uma coisa subjetiva, muito difícil de explicar. Sartre tem uma boa reflexão sobre o problema. Ele diz que é difícil falar sobre o negro , pois não se teve uma experiência negra. Isso é real. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Ralph Ellison escreveu a meu ver o livro mais importante sobre a questão racial que já lí : " Homem Invisível ". A tradução brasileira editada pela Marco Zero é primorosa. Sou invisível 24 horas por dia, nas ruas, no ônibus, no cotidiano em geral e esta invisibilidade se amplifica nas ações que faço dentro da sociedade em que vivo. Talvez eu seja o negro que mais filmes dirigiu neste país. Consegui Deus sabe como, fazer 3 longas-metragens autorais em que escrevi o argumento e o roteiro, participei da produção com a minha Aleph Filmes e dirigi. Fiz nos anos 70 e 80, 15 curta metragens; filmes praticamente sobre tudo. Arquitetura, música, bairros, literatura, filmes institucionais e científicos como o Aids e Odontologia e o Aids e Medicina para o Nutes na campanha do DST Aids do Ministério da Saúde; trabalhei estagiando com Carlos Manga em alguns comerciais e sou depois de meio século trabalhando, um ilustre desconhecido no meio profissional e cultural brasileiro. Sobre a invisibilidade do negro um exemplo que sempre cito é o de chegar na padaria com a ficha estendida esperando para ser atendido, a moça atende todo mundo e de repente você pergunta " e eu aqui? " e ela responde " desculpe não tinha te notado". É que você é invisível e as pessoas tem medo de ver a diferença. Isto quando não olham para você com um nítido ódio e desprezo por ser negro. Isso ocorre quase que diariamente em plena Lapa carioca bairro onde moro, miscigenado num Rio de Janeiro multifacetário e plural.Consegui fazer meus filmes e ganhei até alguns prêmios e parcos reconhecimentos, porque eu não sabia que era negro; sendo mulato e de uma família multiracial eu me julgava igual a todos; levava porradas, levantava e retomava o trabalho pacientemente. Pensava assim: " o erro é meu, você tem que aprender mais, ler , trabalhar". Batia na porta da casa dos outros, entrava em faculdades e cursava. Fiz licenciatura, cheguei até a pensar em dar aulas, mas de tanto ser humilhado e ridicularizado, desisti.Sobrevivi a tudo isso porque muitos dos que me ajudaram não sabiam que eu era negro, que eu era um inimigo a ser massacrado. Duvido que homens cultos , sinceros e inteligentes como o Khouri e o Christensen soubessem que eu era negro. Para eles eu era um homem semelhante e me tratavam como tal.No momento em que vivemos, essa situação das chamadas minorias se agrava ainda mais. O Brasil é um país com uma herança colonial muito forte e as elites são extremamente servis aos interesses estrangeiros que nos exploram. Elas, essas cruéis elites feudais, são a ponte necessária para a espoliação de nosso povo, nossa cultura e nossa riqueza A questão do negro se insere aí. Pouco dinheiro circula para arte, cultura e educação. Oportunidades não mais existem e a possibilidade de negros dirigirem com a liberdade autoral que tive é nula. Esta liberdade só existe na medida em que as obras feitas fiquem confinadas em guetos que ninguém vê ( o famoso gargalo da distribuição ) que filtram o que pode ser visto ou não. Os negros de hoje só podem ter acesso à direção ou a quaisquer cargos importantes se estiverem adaptados dentro do esquema do negro servil. Isto é fácil de entender e vou explicar como: as faculdades , as emissoras de televisão, as grandes empresas, alguns partidos políticos mais modernosos, tem sempre um plantel de dois ou três negros de plantão, em cargos mal remunerados e servis, para disfarçar o ódio e o racismo que permeiam nossa cultura. Se por acaso esses negros se arvorarem a aparecer um pouco mais, se tira rapidamente o brinquedo das mãos dos meninos prodígios. Que me perdoem os irmãos de raça,e que não me interpretem mal. Acredito que o que falo é ciência, não é questão pessoal desta ou daquela pessoa; são lugares já pré- marcados e definidos na estrutura e quem ocupar esses lugares terá que agir assim. Relendo O Mal Estar na Civilização de Sigmund Freud ou Salário Preço e Lucro de Karl Marx se entende facilmente como estes lugares precedem às pessoas que os ocupam. Apesar de tudo isto consegui sair vivo depois de tanta porrada e golpes baixos que sofri. Realizei ainda com dificuldade e com dinheiro próprio os curtas Augusto do Anjos, Ataulfo Alves, Antonio Maria, Santa Teresa Reserva Urbana , Morro da Conceição e muito outros e comecei a preparação para fazer meu primeiro longa " Os Noivos ". Continuo no próximo post.
Reinaldo Cozer, meu amigo e sócio na Aleph Filmes, Eu e Henrique, o fotógrafo. Foto tirada por Otávio de Miranda, assistente de direção. Anos 70. Filmagem do documentário " Morro da Conceição "

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